O Conselho de Segurança das Nações Unidas inicia na próxima semana uma nova fase do processo de escolha do próximo secretário-geral. O voto será informal e cada candidato terá uma de três respostas: encorajamento, desencorajamento ou sem opinião. O processo decorre num contexto internacional marcado por fragmentação política, rivalidades estratégicas e crescente descrença na capacidade das instituições multilaterais para responderem aos grandes problemas comuns. O sucessor de António Guterres não herdará apenas uma agenda carregada de crises. Herdará, sobretudo, a tarefa de fazer reconhecer que os desafios globais só podem ser enfrentados com algum grau de cooperação coletiva.Durante décadas e até ao início deste século, existiu um entendimento mínimo em torno da necessidade de uma agenda internacional de desenvolvimento partilhado. Esse espírito esteve presente nos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2000), e voltou a manifestar-se, com maior ambição, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (2015). Hoje, porém, esse consenso perdeu vigor. A retórica da cooperação permanece, mas a ação política que a sustentava encontra-se profundamente enfraquecida.Há três fatores que ajudam a explicar esta deterioração.O primeiro é a intensificação da competição entre as grandes potências. Desenvolvimento, infraestruturas, tecnologia e governação global deixaram de ser apenas domínios de cooperação; tornaram-se também instrumentos de poder. Os Estados mais preponderantes disputam hoje normas, mercados, dependências estratégicas e espaços institucionais. O Conselho de Segurança, que deveria ser o principal lugar de construção de compromissos, tem-se revelado cada vez mais incapaz de produzir os consensos necessários.A China procura ocupar esse espaço com as suas iniciativas globais para o Desenvolvimento, a Segurança, a Civilização e, desde setembro de 2025, sobre a Governação mundial, a que somou há dias a criação de uma nova estrutura: a Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial (WAICO, nas iniciais inglesas). Tudo isto no seguimento da Rota da Seda, que Xi Jinping pôs em marcha na década passada.O vocabulário oficial chinês é multilateralista, mas na prática estas propostas concorrem com iniciativas ocidentais – como a Parceria para as Infraestruturas e Investimento do G7 (2022) – e com a própria ONU. Tanto Pequim como as capitais ocidentais apresentam estas agendas como contributos para o desenvolvimento global. Mas a competição geopolítica é evidente: cada bloco procura ganhar influência, controlar infraestruturas críticas, projetar normas e criar relações de dependência alinhadas com os seus interesses.O segundo fator é a governação da tecnologia. A robotização e a IA podem libertar o trabalho de tarefas repetitivas, pouco qualificadas ou perigosas, acelerando avanços na saúde, educação, ciência e gestão pública. Mas, sem regras comuns e mecanismos de supervisão partilhados, essas mesmas tecnologias servem para concentrar o poder económico e político, aprofundar as desigualdades e reduzir a autonomia de sociedades inteiras. A disputa sino-ocidental pela definição das normas de inteligência artificial torna ainda mais urgente a criação de fóruns multilaterais capazes de fixar as regras mínimas.O terceiro fator é a transformação digital das sociedades. As redes sociais alteraram profundamente a forma como os cidadãos percebem o mundo, se relacionam entre si e participam na vida pública. O filósofo Byung-Chul Han, um pensador extremamente original e Prémio Princesa das Astúrias (Comunicação e Humanidades, 2025) tem argumentado repetidamente que o capitalismo digital fomenta um individualismo focado na autoexposição e no egocentrismo. Esta “sociedade do eu” erode a empatia e gera indiferença pelas causas coletivas: a pobreza distante, as guerras alheias, a crise climática ou a fragilidade institucional de outros povos ou dos próprios. Há uma espécie de anestesia geral dos cidadãos. A tudo isto soma‑se o impacto da desinformação transnacional, que atravessa fronteiras a uma velocidade digital e condiciona as perceções públicas, as decisões políticas e até a legitimidade das instituições multilaterais, tornando a governação global mais vulnerável a manipulações estratégicas.Perante este quadro de apatia pública e rivalidade entre Estados, o próximo secretário-geral terá de escolher prioridades realistas e politicamente sustentáveis. Antes mesmo de definir essas prioridades, terá de redesenhar a relação da ONU com o ecossistema crescente de organizações regionais e plataformas de cooperação lideradas por Estados do Sul Global.O SG deverá propor, como primeira prioridade, um modelo de reforma do Conselho de Segurança. Sem uma composição mais representativa da realidade geopolítica contemporânea, sem maior presença dos países emergentes e sem algum limite ao efeito paralisante do veto, o Conselho continuará a perder legitimidade e eficácia. Aproximá-lo da Assembleia-Geral e torná-lo mais responsável perante a comunidade internacional será igualmente um passo indispensável.A segunda prioridade deverá consistir na salvaguarda dos mecanismos multilaterais que ainda produzem consensos globalmente vantajosos: por exemplo, nas áreas da saúde pública, segurança alimentar, alterações climáticas, ajuda humanitária, migrações, desenvolvimento sustentável e prevenção de conflitos.A terceira prioridade exigirá uma atenção especial à definição de normas mínimas para a governação tecnológica, em especial no domínio da Inteligência Artificial. Não se trata de impor um modelo único, mas de evitar uma fragmentação normativa que deixe os países mais vulneráveis à mercê de interesses privados ou de pressões estratégicas das grandes potências.Reconstruir a confiança significa identificar domínios concretos em que a cooperação continua possível, criar incentivos para que ela prevaleça sobre a rivalidade e exigir maior responsabilidade política a quem fragiliza as instituições que servem os interesses comuns.A escolha do próximo secretário-geral é importante, mas não será suficiente. Contará igualmente a qualidade da equipa que o acompanhar, a independência dessa equipa face às pressões dos seus países de origem e a capacidade de construir pontes sem se tornar refém de qualquer bloco. O desafio central não é restaurar a fé perdida na solidariedade internacional. É construir formas mais pragmáticas e persistentes de colaboração num mundo em que os interesses divergem, o poder está mais disperso e a confiança se torna de modo acelerado um recurso escasso.