A mitologia grega atribuía a Helena, filha de Zeus e de Leda, características únicas de beleza e, apesar disso, ou talvez por isso, como quase sempre acontecia em tais circunstâncias, terá tido um fim trágico.Certamente que a sua relevância histórica e a sua beleza terão levado os CTT a atribuir ao “primeiro chatbot generativo a ser usado em Portugal” o nome de Helen@.E, nas palavras dos responsáveis dos CTT, a Helen@, que não a de Tróia, estará a ter bons resultados na redução de custos operacionais e na satisfação dos clientes.Esta Helen@ sem rosto está, porque nascida noutra época, muito distante do Correio-Mor do Reino criado por D. Manuel I, em 1520. Por esta via foi instituído um serviço postal do reino, Reino que, naquela época, era já um império pluricontinental.E este oficial público e os serviços pelos quais respondia tinham como razão de ser assegurar com fiabilidade e segurança as comunicações escritas entre os que, no Império, podiam e necessitavam de recorrer a tais serviços.A sociedade é hoje muito diferente da do Portugal do século XVI. Já não há Império, as comunicações ganharam novas formas e, nesta década, surgiram várias Helen@s para nos facilitar a vida.Acontece que, cinco séculos depois continuamos a ter comunicações escritas entre cidadãos, empresas, serviços públicos, órgãos de soberania…E, nalguns casos, sobretudo nos que relevam para o exercício de direitos fundamentais, as comunicações escritas, também conhecidas, no caso, por notificações, obrigam a entrega presencial.E, em tais casos, não há Helen@ que nos salve.Melhor, haver, há, mas terão de ser Helenas como nós. Nem a de Tróia, nem a da IA resolvem o atendimento presencial. Aquela porque a filha de um Deus não faz atendimento, esta porque certamente não conseguiria falar com a diversidade de pessoas que são atendidas.Entre uma pluralidade de balcões em que apenas um está provido de Helenas e o confiar a segurança de atos jurídicos relevantes à Helena que vende jornais e raspadinhas, ou à Helena que vende cafés e pastéis de nata, já tudo me foi dado ver. Bem como o assédio comercial em que o levantamento de um qualquer registo postal se transformou. Sim, levantar uma carta registada transformou-se numa sessão de assédio comercial para ser cliente de um banco.Claro que a responsabilidade não é de quem assume tais procedimentos. A responsabilidade é deste nosso Estado que é incapaz de exercer os seus poderes de fiscalização e controlo. Poderes que só existem para assegurar que a cidadania se exerça plenamente.A Helen@ é bem vinda, mas talvez ainda seja tempo de algumas Helenas poderem entregar, com segurança e celeridade, as cartas aos cidadãos.Mesmo sem Correio mor, o “seguro do correio” continua a fazer sentido.