Oh Helen@!

Luís Parreirão

Advogado e gestor

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A mitologia grega atribuía a Helena, filha de Zeus e de Leda, características únicas de beleza e, apesar disso, ou talvez por isso, como quase sempre acontecia em tais circunstâncias, terá tido um fim trágico.

Certamente que a sua relevância histórica e a sua beleza terão levado os CTT a atribuir ao “primeiro chatbot generativo a ser usado em Portugal” o nome de Helen@.

E, nas palavras dos responsáveis dos CTT, a Helen@, que não a de Tróia, estará a ter bons resultados na redução de custos operacionais e na satisfação dos clientes.

Esta Helen@ sem rosto está, porque nascida noutra época, muito distante do Correio-Mor do Reino criado por D. Manuel I, em 1520. Por esta via foi instituído um serviço postal do reino, Reino que, naquela época, era já um império pluricontinental.

E este oficial público e os serviços pelos quais respondia tinham como razão de ser assegurar com fiabilidade e segurança as comunicações escritas entre os que, no Império, podiam e necessitavam de recorrer a tais serviços.

A sociedade é hoje muito diferente da do Portugal do século XVI. Já não há Império, as comunicações ganharam novas formas e, nesta década, surgiram várias Helen@s para nos facilitar a vida.

Acontece que, cinco séculos depois continuamos a ter comunicações escritas entre cidadãos, empresas, serviços públicos, órgãos de soberania…

E, nalguns casos, sobretudo nos que relevam para o exercício de direitos fundamentais, as comunicações escritas, também conhecidas, no caso, por notificações, obrigam a entrega presencial.

E, em tais casos, não há Helen@ que nos salve.

Melhor, haver, há, mas terão de ser Helenas como nós. Nem a de Tróia, nem a da IA resolvem o atendimento presencial. Aquela porque a filha de um Deus não faz atendimento, esta porque certamente não conseguiria falar com a diversidade de pessoas que são atendidas.

Entre uma pluralidade de balcões em que apenas um está provido de Helenas e o confiar a segurança de atos jurídicos relevantes à Helena que vende jornais e raspadinhas, ou à Helena que vende cafés e pastéis de nata, já tudo me foi dado ver. Bem como o assédio comercial em que o levantamento de um qualquer registo postal se transformou. Sim, levantar uma carta registada transformou-se numa sessão de assédio comercial para ser cliente de um banco.

Claro que a responsabilidade não é de quem assume tais procedimentos. A responsabilidade é deste nosso Estado que é incapaz de exercer os seus poderes de fiscalização e controlo. Poderes que só existem para assegurar que a cidadania se exerça plenamente.

A Helen@ é bem vinda, mas talvez ainda seja tempo de algumas Helenas poderem entregar, com segurança e celeridade, as cartas aos cidadãos.

Mesmo sem Correio mor, o “seguro do correio” continua a fazer sentido.

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