Entre a invasão da Ucrânia pela Rússia e a eleição de Donald Trump, a ordem liberal internacional, que sucedeu à ordem bipolar da Guerra Fria, declinou e morreu; porém a “nova ordem das grandes potências” está também a tentar sobreviver sob os maus-tratos da guerra no Médio Oriente, desencadeada pelo ataque israelo-americano a Teerão.Dir-se-ia que, dadas as relativamente acomodatícias reacções de Pequim e Moscovo, essa nova ordem já está implicitamente a funcionar; mas só o desenrolar dos acontecimentos poderá testar a sua resistência.Na segunda-feira, 22 de Março, Donald Trump mostrou vontade de acabar depressa com a guerra, referindo conversações com Teerão e a suspensão dos ataques por cinco dias.Interessa a Trump e aos Estados Unidos pôr termo ao conflito o mais depressa possível: a clerocracia iraniana não parece muito abalada pelos danos nas estruturas militares do regime, nem pela liquidação de líderes; a repressão de Janeiro deve ter decapitado parte da oposição interna; e os bombardeamentos às cidades - como mostrou a experiência dos Aliados na 2.ª Guerra Mundial, atacando as populações civis para causar um levantamento anti-Hitler - tendem naturalmente a desencadear nos bombardeados, por muito que se oponham ao regime, uma súbita solidariedade nacional.Depois da morte do líder supremo, a continuação dos bombardeamentos ajudou ao triunfo dos radicais contra uma linha de sucessão moderada, liderada pelo presidente da República, Masoud Pezeshkian, e pelo neto do ayatollah Ruhollah Khomeini, Hassan Khomeini.O antigo líder do Irão, Ali Hasseini Khamenei, na nota sobre a sua sucessão, não incluía o filho, Mojtaba Khamenei, no trio que recomendava. Mas o clima de radicalismo criado pela liquidação das elites religiosas, securitárias e militares do Irão, terá levado à radicalização das escolhas, retirando espaço aos “moderados”.A par disto, a clerocracia iraniana e os seus parceiros do complexo militar securitário entenderam que a melhor forma de se defenderem de um inimigo muito superior em poder de fogo era a estratégia indirecta do ataque à economia mundial. E, por isso, começaram a disparar em todos os sentidos sobre os vizinhos sunitas - da Casa de Saud aos sultanatos e emiratos, produtores de petróleo e gás. Ao mesmo tempo, bloquearam pela ameaça e por algumas acções o Estreito de Ormuz, por onde passa diariamente entre 20% e 25% da energia produzida na região, grande parte com destino à Ásia, isto é, à China, ao Japão e à Coreia do Sul.E depois há, para surpresa de muitos, a assimetria da guerra contemporânea que, às vezes, favorece o mais fraco. O Irão fabrica drones, que tem usado para atacar instalações petrolíferas e de dessalinização dos Estados circundantes. Estes drones, por exemplo os Shahed, custam, cada um, à volta de 20.000 dólares americanos; em contrapartida, os mísseis Patriot (PAC-3 Interceptor), usados pelos norte-americanos para se defenderem destes drones, custam 200 vezes mais, ou seja, à volta de 4 milhões. Daí que o Pentágono tenha chamado especialistas ucranianos para ajudarem os militares americanos com formas e equipamentos mais eficientes e baratos para enfrentar os drones de Teerão.Com tudo isto, percebe-se que Trump queira sair, e depressa, do vespeiro iraniano que ameaça causar também divisões na sua base de apoio interna.Mas será que os iranianos o deixam sair, sem perder a face? O autor escreve de acordo com a antiga ortografia