O verdadeiro líder da oposição

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A recente entrevista de Pedro Passos Coelho ao Eco, bem como as suas explanações ao longo da última semana, não foram apenas intervenções pontuais de um antigo primeiro-ministro. Foi um gesto político com consequências.

Num momento em que o espaço da oposição parece difuso e hesitante, em que tanto André Ventura, como José Luís Carneiro não trazem qualquer contributo novo, Passos surge com uma clareza e assertividade que o colocam, paradoxalmente, como uma das vozes mais firmes contra o rumo do próprio Governo do seu partido.

Ao afirmar que, se um dia decidir candidatar-se, o anunciará sem ambiguidades, Passos Coelho mantém aberta a porta do regresso sem assumir qualquer compromisso. Mas mais importante do que o futuro pessoal é o presente político. Ao defender que o Executivo deveria ter procurado um acordo de legislatura à direita, incluindo Chega e Iniciativa Liberal, está a fazer mais do que uma análise estratégica: está a expor aquilo que considera ser a insuficiência da actual liderança social-democrata.

Não se trata de um ataque frontal, mas de algo talvez mais desconfortável: uma crítica estruturada, vinda de dentro. Ao insistir na urgência de reformas profundas, da Segurança Social ao modelo económico, Passos contrapõe à prudência governativa, uma visão reformista sem concessões. Implícita está a ideia de que o Governo está aquém do necessário. Crítica mais acutilante, impossível.

Neste sentido, Passos Coelho assume-se como uma espécie de líder da oposição interna: não disputa formalmente a liderança do PSD, mas demarca-se; não apresenta alternativa orgânica, mas sugere-a; não rompe, mas aumenta a tensão.

Num partido no poder, raramente a crítica mais incisiva vem de dentro: daí a surpresa. E isso não só demonstra as potenciais fragilidades do PSD; demonstra, principalmente, a debilidade do debate político da oposição ao Governo, oposição essa que em dois anos não foi capaz de dizer o que Passos Coelho disse num dia.

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