Há fenómenos políticos que, de tão persistentes, deixam de ser meras oscilações estatísticas e passam a ser sinais de algo mais profundo. As últimas sondagens, incluindo os dois mais recentes barómetros mensais DN/Aximage, voltaram a colocar o PS, sob a liderança de José Luís Carneiro, à frente das intenções de voto. Vale o que vale, porque as sondagens valem o que valem. Mas não deixam de ser boas notícias para uma liderança que muitos, dentro do próprio partido, encaram como transitória e destinada a dar lugar a outra, quando o PS tiver hipóteses de voltar a ser poder.Convém recordar que este padrão não nasceu agora. Durante a própria campanha interna do PS, poucas semanas antes de ser derrotado por Pedro Nuno Santos nas eleições diretas de 15 e 16 de dezembro de 2023, uma sondagem da Universidade Católica para o Público e RTP, divulgada a 28 de novembro, já colocava José Luís Carneiro como favorito num confronto direto com Luís Montenegro, atribuindo-lhe 42% das intenções de voto. Ou seja, mesmo antes de chegar à liderança, José Luís Carneiro já surgia como o potencial líder socialista que estaria melhor posicionado para disputar o centro político.O mais interessante é que, dentro do partido, Carneiro perdeu. Fora dele, ganhava. E isso diz muito sobre o momento que o PS vive e sobre a forma como olha para si próprio..Estamos, portanto, perante um desfasamento evidente entre duas perceções distintas. Por um lado, existe uma simpatia popular que, segundo as sondagens, parece beneficiar José Luís Carneiro. Por outro, persiste um sentimento mais frio, por vezes até condescendente, entre setores das elites socialistas, sobretudo as da capital. É como se parte do partido continuasse a olhar para o seu líder como alguém que chegou ao topo por acidente e não por mérito próprio. Alguém que dá jeito ter numa altura em que o partido faz um jejum de poder, mas que, no momento certo, poderá ser afastado para dar lugar a alguém mais bem relacionado e com os apoios certos. Mais “carismático”, como dizem alguns. À semelhança do que aconteceu com António José Seguro, há 12 anos.Talvez a explicação esteja na velha clivagem entre capital e província, uma fronteira invisível, que não é necessariamente geográfica e está ainda muito presente na política portuguesa. José Luís Carneiro não vem da bolha político-mediática de Lisboa e Porto, nem pertence ao círculo habitual de comentadores, assessores e estrategas que moldam a perceção pública do poder. E, por isso, alguns barões do PS parecem desvalorizá-lo, não necessariamente pelas suas ideias.."O verdadeiro desafio não é convencer as elites do PS, mas sim o país, demonstrando que é capaz de liderar uma alternativa de governo estável, que ofereça soluções reais para os problemas das pessoas.”.Se assim é ou não, só o tempo dirá. Mas há algo que o líder socialista não deveria temer: assumir aquilo que é. Transformar a suposta desvantagem numa vantagem. Há uma parte significativa do eleitorado que se revê em lideranças menos elitistas e o país vai, cada vez mais, para além de Lisboa e Porto.Se José Luís Carneiro conseguir articular essa autenticidade com uma visão clara para o país, então aquilo que hoje parece um desfasamento pode tornar-se, amanhã, numa força inesperada. Esse é, na verdade, o grande desafio de José Luís Carneiro: convencer o país de que é capaz de liderar uma alternativa de governo estável, oferecendo soluções reais para os problemas das pessoas e comunicando de uma forma que aquelas o entendam. E com uma renovação das figuras de proa do PS, que traga sangue novo para dar a cara por um partido que esteve no poder durante 21 dos últimos 30 anos e que, por essa razão, tem muita “bagagem” para deitar fora.