“O bom da ciência é que ela é verdadeira, quer se acredite nela ou não.”Neil deGrasse Tyson, astrofísico, escritor e divulgador científico norte-americano (1958)Com as eleições intercalares nos Estados Unidos da América (EUA), agendadas para novembro de 2026, e perante a possibilidade de o Partido Republicano perder a maioria na Câmara dos Representantes, era previsível que Anthony Fauci fosse intimado a depor, mais uma vez, perante a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, presidida pelo republicano Rand Paul, que a integra desde 2019. Paul, de 63 anos, médico oftalmologista antes de entrar no Senado, insiste que o SARS-CoV-2 resultou de uma fuga do Instituto de Virologia de Wuhan, devido a verbas autorizadas por Fauci e que Paul considera de “ganho de função”.Anthony Fauci, de 85 anos, é um prestigiado médico que foi diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases entre 1984 e 2022, conselheiro de vários presidentes e figura central na resposta à pandemia, tanto durante o primeiro mandato do Presidente Trump, até 2021, como durante a administração do Presidente Biden.Já em 2022, Fauci tinha respondido ao senador Paul que mantinha uma posição aberta sobre a origem do SARS-CoV-2, embora a evidência científica acumulada apontasse fortemente para uma origem natural. Sem novos dados sobre a origem do vírus, nem consenso quanto à definição de “ganho de função”, Fauci evocou este ano a 5.ª Emenda da Constituição para não repetir respostas dadas em anos anteriores. A atitude foi considerada desrespeitosa e, por maioria de um voto republicano, a Comissão remeteu ao Departamento de Justiça uma recomendação por desacato contra Fauci, somando-se às referências criminais anteriores, de 2021 e renovadas em 2023 e 2025. Curiosamente, em 2022, Donald Trump invocou a 5.ª Emenda mais de 400 vezes num depoimento sobre alegadas fraudes financeiras.Compreende-se o desinteresse dos meios de comunicação social europeus por esta “lavagem de roupa suja”, mas há uma lição essencial a retirar: a politização do conhecimento e a instrumentalização das instituições corroem a confiança pública e comprometem a resposta a futuras pandemias.O covid-19 foi a maior ameaça global vivida pela maioria de nós. Só a superámos graças à ciência, que, com o conhecimento disponível em cada momento, permitiu fundamentar as melhores decisões. Embora algumas medidas possam ter sido mal comunicadas, nenhuma foi cientificamente desmentida ou despublicada, servindo como base para o futuro. Importa recordar a pressão extrema sobre as instituições de saúde, os milhões de vidas salvas pela vacinação e a atribuição, em 2023, do Prémio Nobel à tecnologia de RNAm usada nas vacinas.Muito obrigado, dr. Anthony Fauci, por tudo o que nos ensinou e transmitiu.