O triunfo dos pombos

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Em 1894, Rudyard Kipling publicou O Livro da Selva, o best seller que aborda os dualismos lei e liberdade, autoridade e anarquia, obediência e rebeldia, através de personagens como o lobo Akela, o representante do poder institucional, o tigre Shere Khan, o indivíduo orgulhoso que rompe a harmonia coletiva, e Mogli, a criança selvagem dividida entre dois mundos.

Em 1980, no contexto dos horrores do Holocausto, Art Spiegelman representa os judeus, a presa, como ratos, e os nazis, o predador, como gatos, e ainda inclui cães, os americanos, entre outros bichos, reduzindo os seres humanos a categorias animais naturalmente inimigas, na famosa série Maus.

Pelo meio, em 1945, George Orwell criou Animal Farm – O Triunfo dos Porcos, em Portugal, ou A Revolução dos Bichos, no Brasil. Na obra, animais rebelam-se contra o terrível dono humano da quinta e criam uma sociedade utópica igualitária, liderada por porcos como Major, personagem baseada no teórico Marx e no precursor Lenine, e Bola de Neve, inspirado no idealista Trotsky, mas que deriva numa ditadura de Napoleão, um paralelo com o tirano Stalin.

Entretanto, as metáforas envolvendo animais, em forma de fábulas de Esopo ou La Fontaine, como O Lobo e o Cordeiro, por exemplo, ou de provérbios populares, como pôr a raposa a guardar o galinheiro, outro exemplo, são quase tão antigas como a Arca de Noé.

Mas ainda há espaço para surgirem novas expressões, a todo o momento, adequadas aos contextos que vivemos. 

Em março de 2005, na seção de críticas da Amazon.com ao livro Evolução versus Criacionismo: uma Introdução (2004), da especialista em evolução Eugenie C. Scott, o leitor Scott D. Weitzenhoffer formulou uma muito oportuna: “Debater com criacionistas sobre evolução é muito parecido com jogar xadrez com um pombo – ele vai derrubar todas as peças, defecar no tabuleiro e voar de volta ao bando a clamar vitória”.

“Jogar xadrez com pombos” descreve, portanto, a frustração de quem discute, argumenta ou debate com alguém que ignora completamente a lógica, os factos, a ciência, a civilização. 

Naquela formulação, Weitzenhoffer alvejava os criacionistas mas poderia referir-se também a terraplanistas, a negacionistas climáticos radicais, ao movimento antivacinas, a teóricos malucos da conspiração ou, adaptando, à política brasileira destes estranhos tempos, a bolsonaristas e suas derivações.

Como o coach e político Pablo Marçal, que nos debates da campanha para prefeito de São Paulo em 2024 forjou um relatório médico de consumo de cocaína de um rival, recuperou acusação arquivada de assédio sexual de outro concorrente e insinuou que uma candidata colaborara para o suicídio do pai.

Com esse CV em mãos, tornou-se coach privado de Flávio Bolsonaro nos debates deste ano. No da Band, no domingo que passou, instruiu o candidato presidencial a derrubar peças e a defecar no tabuleiro. Na república de pombos em que o Brasil se tornou, é muito provável que Flávio e Marçal cantem vitória no domingo que vem com o seu bando.

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