O triunfo dos brutos

André Franqueira Rodrigues

Advogado, eurodeputado pelo PS e membro da Comissão de Defesa do Parlamento Europeu

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I. “A estaca no vampiro”

Há momentos na História em que a balança se desequilibra perigosamente. Vivemos um desses momentos. O desprezo pelo Direito Internacional, o ataque sistemático à ciência e aos factos, a crescente glorificação da ignorância como pretenso sinal de autenticidade, tudo isto revela um trágico retrocesso civilizacional. A ideia de que a verdade é relativa e de que a força legitima tudo, tem vindo a ganhar terreno.

No plano internacional, abundam os exemplos: desde o regresso à velha lógica da competição geopolítica entre as grandes potências, ao atropelo descarado das mais elementares regras de convivência, passando pela ofensa grotesca à Carta das Nações Unidas, violações de soberania e da integridade territorial, até à inaudita e inacreditável ameaça de aniquilar uma civilização inteira numa única noite

As últimas semanas demonstraram que a imprevisibilidade tomou o lugar da estratégia, a ambiguidade tornou-se regra e o silêncio, demasiadas vezes, cumplicidade e cobardia. A verdade é que nada do que estamos a assistir é verdadeiramente uma surpresa. Os sinais estavam lá todos e, por isso mesmo, não têm desculpa aqueles que, na Europa e em Portugal, insistem em olhar para o lado e fazer ouvidos de mercador ao que estamos a assistir na arena internacional. Já em 2018, Steve Bannon dizia literalmente que “o coração do projeto globalista está em Bruxelas. Se enfiarmos a estaca no vampiro, tudo começará a dissipar-se”.

II. Reescrever a História

Em Portugal, o fenómeno assume contornos igualmente preocupantes. O discurso de André Ventura na Assembleia da República, por ocasião dos 50 anos da Constituição, foi mais do que uma provocação: foi uma tentativa deliberada de reescrever a História, desvalorizar conquistas democráticas e legitimar uma narrativa perigosa que alimenta uma turba de apoiantes radicais cuja ignorância só rivaliza com a total ausência de vergonha em verbalizá-la.

Perante o que se assiste diariamente na Assembleia da República ou em alguns estúdios de televisão e de rádios, mais ou menos condescendentes, a dita direita conservadora hesita, quando não tolera mesmo, não se sabe se por medo se por dúvida metódica, e a esquerda parece, vezes demais, perdida, sem rumo ou referências claras. Este vazio é o terreno fértil onde triunfam os brutos.

III. Elogio da ignorância

Perante este evidente declínio, cabe às forças moderadas – com o PS à cabeça – romper, corajosamente, no plano regional e nacional este ciclo. É urgente regressar aos princípios fundadores: a defesa intransigente da liberdade, o respeito absoluto pelos Direitos Humanos e a centralidade do Estado de Direito. Não como slogans, mas como compromisso para uma cidadania ativa.

A democracia só resiste se contar com instituições fortes e indivíduos capazes de combater, com eficácia e coragem, as armas com que os brutos estão a vencer: a desinformação, o elogio da ignorância e o culto da liderança providencial.

A democracia, casa comum dos direitos e do respeito pela diferença e pelas minorias, não sobreviverá se, por um lado, ceder aos ataques de que é alvo e, por outro, se durante a luta pela sobrevivência se transformar justamente naquilo que pretende combater.

Não tenhamos ilusões: vivemos num mundo cada vez mais perigoso e as democracias estão, para já, a perder.

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