O sucesso de Leão XIV na “filha mais velha da Igreja”

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Numa reportagem sobre as centenas de milhares de franceses que no sábado em Paris assistiram ao cortejo do papa pelos Campos Elísios e à missa na Praça da Concórdia, o Le Monde destacava a dado momento o comentário de uma das altas figuras da hierarquia católica presentes sobre o impacto desta visita de quatro dias: “na multidão, o Arcebispo de Tours, Vincent Jordy, observou que o ‘fervor’ que se apoderou do país durante a visita do papa Leão XIV ia muito para além dos católicos. Na sexta-feira à noite, no Estádio de Saint-Denis, estiveram também presentes jovens ateus e seguidores de outras religiões. Segundo o prelado, os franceses estão curiosos sobre este papa que resiste a Donald Trump ‘com gentileza’, aborda as principais questões do nosso tempo (inteligência artificial, alterações climáticas) com nuances e mantém uma ‘voz livre’”.

Sucessor de Francisco, de quem é em boa medida um continuador mas com estilo e ideias próprias, Leão XIV conquistou neste pouco mais de um ano de Pontificado uma popularidade que já antes da visita a França tinha sido evidente noutra grande nação católica europeia, a Espanha, onde esteve em junho. Primeiro papa americano, capaz de enfrentar as críticas de Donald Trump sem romper a relação com o presidente dos Estados Unidos, pensador do mundo contemporâneo, indo das alterações climáticas ao impacto da Inteligência Artificial, aquele que se chama Robert Prevost atrai admiração global, mas em França de uma forma especial.

Um ramo da família papal tem raízes francesas, como o apelido revela, e o pai do papa foi um dos militares americanos envolvidos no desembarque na Normandia, o Dia D, 6 de junho de 1944, que levaria à libertação de França e à derrota em menos de um ano da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial.

A popularidade de Leão XIV em França merece uma atenção particular dada a relação histórica do país com a Igreja Católica. Em finais do século XV, os reis de França passaram a usar o título de “filho mais velho da Igreja”, uma referência ao batismo de Clóvis, rei dos francos. Independentemente da veracidade histórica da designação, esta tornou-se tão emblemática que já depois da Revolução Francesa passou a ser um atributo do próprio país, passando a França a ser designada como “a filha mais velha da Igreja”, expressão que se pode encontrar proferida por vários papas recentes, assim como por presidentes franceses, caso do general Charles de Gaulle.

É a aparente contradição entre este título de “filha mais velha da Igreja” e o laicismo da República Francesa que torna ainda mais relevante o sucesso da visita papal. Na missa na Praça da Concórdia, em sinal de respeito pelo laicismo oficial, o presidente Emmanuel Macron (que à chegada acolheu o papa e o recebeu no Palácio do Eliseu) não esteve presente, mas fez-se representar por Brigitte Macron, e entre a assistência esteve também o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, assim como o antigo presidente Nicolas Sarkozy e vários candidatos às presidenciais de 2027, entre eles Marine Le Pen, derrotada na segunda volta das duas mais recentes eleições.

Se os números em França dão conta de uma grande quebra da percentagem de batismos a partir da década de 1960, assim como da assistência à missa dominical, por outro lado poderá ser neste país que a ideia de uma Europa crescentemente ateia começa a ser desmentida. Numa entrevista há uns meses, o núncio apostólico em Lisboa, Andrés Carrascosa Coso, realçava como a ausência de religiosidade entre os europeus podia não corresponder à realidade: “Acho que isso é um cliché. É a ideia que temos, de que deve ser mais ou menos assim. Mas não temos em conta a enorme religiosidade popular. Em determinadas atividades, comparecem até um milhão de pessoas. Mas, sobretudo, não se tem em conta um fenómeno novo dos últimos anos. Principalmente em França, o país mais secularizado. Falo do fenómeno dos batismos de jovens adultos. É um fenómeno que até os bispos franceses acabaram de fazer uma assembleia plenária para estudá-lo, pois surpreende-os. Na Páscoa, há dezenas de milhares de jovens adultos que se batizam após um ou dois anos de preparação. Um novo fenómeno. Porque há um cansaço com tantas outras coisas que não preenchem a vida. Começa a surgir uma procura por algo maior. E isto acontece também porque, para eles, aquela ideia anticatólica que existiu até há algum tempo já não existe. Simplesmente dizem que são católicos. A geração dos pais deles, que provavelmente é a de 1968, já passou. Estas gerações são complexas. Veem a religião como algo interessante.”

Ontem, Leão XIV esteve em Lourdes, um dos grandes santuários marianos do mundo, e outra marca da relação forte, e complexa, entre França e o catolicismo. Hoje, em Metz, o papa aproveitará o seu último dia entre os franceses para falar da Europa, um continente que possui uma inquestionável matriz cristã, também uma tradição laica muito evidente e hoje se confronta, via emigração, com uma diversidade cultural que também é pluralidade religiosa. Tudo temas que não escapam à atenção do Vaticano, que destacou que na missa na Praça da Concórdia participaram 800 mil pessoas, uma prova de popularidade, se não do catolicismo certamente do seu chefe.

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