A tarde de sábado foi muito bonita. Por todo o país milhares de pessoas saíram à rua a exigir soluções para o drama da habitação, naquela mistura curiosa de indignação e de alegria que carateriza muitas das manifestações e protestos em Portugal. Desceram a Avenida da Liberdade pessoas de todas as gerações, famílias inteiras. Já no Rossio, cruzei-me com um casal, ambos já muito velhinhos. Ela, com um enorme sorriso, fez-me uma festinha na cara e disse-me “sabe, eu sou uma sonhadora, continuo a acreditar que a mudança é possível”.
A noite de sábado foi pavorosa. As imagens da polícia a carregar sobre quem pernoitava nas praças de Lisboa e do Porto são indignas de um país democrático. É absolutamente injustificável qualquer violência de Estado sobre manifestantes pacíficos, com o agravante de ter sido uma violência planeada e deliberada com um contingente policial absolutamente desproporcional, e armado de bastões, tasers, gás lacrimogéneo e cães. O país assistiu horrorizado à brutalidade, aos ferimentos, à destruição, às perseguições às pessoas ruas fora. Pais e mães não sabiam dos seus filhos – se estariam na esquadra, no hospital, se estariam em segurança. O nível de angústia era palpável em todo o lado, não só pelas pessoas afetadas, mas pelo estado da democracia que esta repressão repetida representa.
No dia seguinte, as pessoas voltaram a sair à rua e a encher as praças, contra a repressão policial e por soluções para a crise de habitação. E resolveram insistir com os protestos pacíficos e organizados, mostrando a Luís Montenegro que a importação de violência que vemos em tumultos noutros países está a acontecer, sim, mas do lado da repressão do Estado e não dos cidadãos e cidadãs.
No domingo havia na rua mais indignação do que alegria, face ao horror da noite de sábado. Mas, entretanto, vieram as notícias da Sérvia da vitória estrondosa dos cidadãos sobre o autoritário Vučić e, poucas horas depois, a virada cada vez mais possível de Lula sobre Flávio Bolsonaro. E virou, com Lula a garantir a vitória na segunda volta com muito mais votos do que tinha tido na primeira. E isso foi conseguido porque milhões de pessoas se concentraram na campanha, em apelar a quem não tinha votado, a virar votos, um a um nas pessoas à sua volta. A mobilização de milhões de cidadãos em vários locais do mundo mostrou que é possível lutar em conjunto por um futuro melhor – e democrático. E que a construção desse futuro conjunto e partilhado é a melhor forma de contrariar quem nos quer arrastar para um mundo polarizado e injusto, quem nos quer impedir de sonhar.
À Elisa, a senhora velhinha com o sorriso do tamanho do mundo que me fez a festinha na cara, respondi “ainda bem que é sonhadora, a Elisa e todas estas pessoas que há semanas se juntam pelo direito à habitação. Porque o sonho comanda a vida.” E é das nossas vidas que tudo isto se trata.