O século do cinema

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O quadro O Quarto Estado (1901), do pintor italiano Giuseppe Pellizza da Volpedo, fixou-se na história como exemplo de uma arte indissociável das grandes convulsões sociais e políticas. Nele se representa um grupo de trabalhadores, durante uma greve, na Piazza Malaspina, em Volpedo (província de Alexandria, região Piemonte). Três figuras destacam-se do grupo – são os representantes dos trabalhadores para as negociações que poderão seguir-se. O “Quarto Estado” refere-se, precisamente, ao coletivo social dos trabalhadores (depois do clero, nobreza e burguesia). Objeto visceralmente político, suscitando inevitáveis clivagens ideológicas no contexto em que surgiu, é hoje um tesouro da arte de Itália, integrando a coleção da Galeria de Arte Moderna de Milão.

Cito O Quarto Estado através de uma memória cinéfila. Foi, de facto, há 50 anos que surgiu o épico 1900 (Novecento), de Bernardo Bertolucci (1941-2018) – exibido no Festival de Veneza em finais de agosto de 1976, chegaria às salas italianas nos primeiros dias de setembro. O filme começava com um grande plano do rosto da figura central da pintura, sendo o quadro revelado através de um zoom com a duração do próprio genérico.

Um filme de 1976, uma pintura  de 1901.
Um filme de 1976, uma pintura de 1901.

Eis uma memória que nos remete para a complexidade política da obra de Bertolucci, indissociável de uma rara força pulsional. E não apenas porque ele foi um observador clínico de vários contextos da história de Itália – 1900 tem mesmo uma estrutura temporal em ziguezague, começando a 25 de abril de 1945, Dia da Libertação do fascismo.

Através da sua filmografia, encontramos também vários retratos das gerações mais jovens, retratos contaminados por um misto de cumplicidade e desencanto em que, por vezes, emerge um ceticismo suscitado pela evolução das forças comunistas (veja-se ou reveja-se o luminoso Antes da Revolução, lançado em 1964); noutros casos, a juventude afirma-se como uma ideia “coletiva” tocada pelas grandes ilusões utópicas (Os Sonhadores, de 2003, é uma das mais belas evocações de Maio de 68 que o cinema, italiano ou não, já produziu).

Em termos políticos, justamente, 1900 será um filme difícil de compreender através dos maniqueísmos políticos e morais (e do moralismo político) que passaram a alimentar o espaço televisivo que nos rodeia (ou que esse espaço alimenta). Não que Bertolucci sustente qualquer visão quimérica das diferenças humanas e políticas – estamos mesmo perante um filme que expõe, com perturbante detalhe, a violência inerente ao fascismo.

Acontece que, para ele, o fator humano nunca se esgota nos programas políticos ou nos clichés panfletários. 1900 tem mesmo como personagens nucleares dois amigos – um grande proprietário de terras (Robert De Niro) e um camponês (Gérard Depardieu) – aproximados e divididos pelas atribulações da história coletiva.

"O filme 1900, de Bernardo Bertolucci, estreou-se há 50 anos, quando a cinefilia era um valor comercial e cultural."

A memória do filme envolve também as suas singularidades enquanto fenómeno comercial. Porquê? Porque a sua duração original – mais de cinco horas (317 minutos) – o tornou um objeto “difícil” para alguns mercados. Certos países, nomeadamente os EUA, optaram por uma versão mais curta (ainda assim, com 247 minutos). Outros exibiram a versão integral, mas em duas partes.

Portugal foi um desses países em que 1900 - Parte 1 e Parte 2 constituiu um genuíno fenómeno comercial e cultural (como separar uma dimensão da outra?). Com um aparato muito particular: em Lisboa, a primeira parte foi lançada no Cinema São Jorge, a segunda no Mundial, em exibição simultânea – o São Jorge ainda era uma imensa sala única, que chegou a ser a maior do país (1827 lugares); o Mundial já não existe. Por isso, quando se diz que o Novecento foi o “século do cinema”, é melhor acreditarmos.

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