Uma sala com um comediante em palco. Vem a piada demolidora, a sala ri em uníssono, e no fim fica no ar um resto amargo, a sensação de que se riu contra alguém e não com alguém. Fez rir, e muito, mas não teve graça. A distinção parece um capricho de gramático e é, na verdade, o sintoma de uma perda. A palavra graça encolheu. Dizemos que alguém “tem graça” quando provoca gargalhadas, pedimos “uma graça” apenas por ironia, e o resto ficou entregue ao catecismo, onde já poucos a vão procurar. Vale a pena perguntar o que perdemos pelo caminho.E, no entanto, a graça foi, durante séculos, uma das ideias mais ricas da convivência. Antes de ser sinónimo de comicidade, era o gesto bondoso e imprevisto, o dom que não se devia, o favor que ninguém podia exigir e que, precisamente por isso, tocava. A graça era o que excedia a conta. Marcel Mauss mostrou que as sociedades se constroem sobre dádivas que criam laços porque não são contratos. Ora, numa época de contabilistas morais, tudo o que excede a conta se tornou suspeito. O indulto presidencial tem de vir acompanhado de fundamentação exaustiva, a amnistia é escrutinada como um negócio, o perdão fiscal cheira a favor. Não está errado exigir razões ao poder. Está errado acreditar que uma graça inteiramente justificada continua a ser uma graça. Quando tudo se deve, nada se dá.O mesmo aconteceu ao riso. Bergson escreveu que o riso é um gesto social, uma correção que a comunidade aplica a quem endurece. Mas pressupunha uma comunidade. O humor dominante de hoje, mais agressivo, mais duro, mais eficaz do que nunca, funciona muitas vezes como artilharia: escolhe o alvo, dispara, contabiliza os despojos em partilhas.Simon Critchley, no seu pequeno ensaio sobre o humor, defendeu que a boa piada nos devolve ao mundo comum, começando por rir de nós próprios antes de rirmos dos outros, e que é nessa devolução que o riso se torna partilha em vez de sentença. É exatamente isso que falta a tanto humor contemporâneo. O diafragma contrai-se, a métrica sobe, o algoritmo agradece, e a graça, essa, não compareceu.Porque também a piada precisa de legitimidade. Não a legitimidade dos códigos de conduta nem das listas de temas proibidos, mas a de um substrato que a sustente: uma verdade revelada, uma vaidade desmontada, uma cumplicidade criada. O riso sem esse lastro é apenas mecânica, um reflexo tão utilitário como um espirro. A crueldade eficaz não é humor, é pontaria.Resgatar a graça seria, afinal, resgatar as duas coisas ao mesmo tempo. Reaprender a dar sem que o gesto precise de contrato e de recibo, e reaprender a rir de modo que o riso aproxime em vez de separar, que ilumine em vez de queimar. Uma sociedade sem graça, em ambos os sentidos, não deixa de rir, nem de trocar favores. Apenas deixa de perceber porque é que umas coisas nos tornam melhores e outras somente mais barulhentos.