O quinto irmão

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De Abel, morto por Caim, aos filhos de Jacó, que venderam José como escravo, a Bíblia é farta em histórias de irmãos. Na mitologia grega, há Zeus, Poseidon e Hades, em permanente tensão, e há Castor e Pólux, em plena colaboração. Na grande literatura universal, dos Karamazov a Cordelia e demais filhas de Lear, a fraternidade também é tema comum.

Entretanto, no Brasil, os de carne e osso irmãos Bolsonaro já geraram milhares de notícias de jornal.

Comecemos pelo mais novo, o “04”, no linguajar de Jair Bolsonaro, o pai. Renan, cujo primeiro ato como vereador eleito da cidade de Balneário Camboriú foi meter férias, teve telefone e computadores apreendidos no contexto de uma operação policial contra um grupo suspeito de fraude, lavagem de dinheiro, sonegação e falsificação de documentos.

Eduardo, deputado suspenso por faltas que mora nos EUA, de onde força o governo Trump a aumentar tarifas comerciais sobre o Brasil e a punir autoridades brasileiras, ameaçou em 2019 a esquerda com novo Ato Institucional número cinco (o AI5 foi o decreto da ditadura militar que instituiu a supressão de mandatos de políticos eleitos, a censura, a tortura e outras formas de repressão). O 03 também disse um dia que lhe bastariam um jipe e um soldado para fechar o Supremo Tribunal.

Carlos, 02 e candidato ao Senado em 2026 por Santa Catarina, foi, segundo reportagens da imprensa e investigações da polícia, o líder do “gabinete do ódio”, estrutura digital anexa ao gabinete presidencial no Palácio do Planalto durante o governo do pai, que dirigia ataques e desinformação pró-família e anti-oposição de esquerda e demais correntes da direita.

Terminemos com Flávio, o 01. O senador que, segundo as autoridades, desviava os salários de funcionários-fantasma do seu gabinete como deputado estadual do Rio de Janeiro comprou em dinheiro vivo uma mansão em Brasília fora do alcance dos seus vencimentos e, qual Willy Wonka, tinha uma loja de chocolate onde tratava de lavar o que sujava.

Ainda assim, candidatou-se à Presidência da República. Para ganhar balanço eleitoral, passou meses a atacar as ligações perigosas de Daniel Vorcaro com a metade de Brasília que o banqueiro, hoje preso, corrompeu. Sacudiu o problema para as costas da esquerda e até deixou cair aliados apanhados na rede de conexões do fundador do Banco Master, incluindo aquele que chegou a considerar o seu “vice ideal”.

Mas, entretanto, perdeu amigos, perdeu apoios e perdeu pontos nas sondagens ao ser apanhado em gravações a pedir milhões para um filme sobre o pai ao mesmo Vorcaro, a quem chamava nas conversas de “meu irmão” e ‘irmãozão” e a quem prometia fidelidade eterna.

Vorcaro era o irmãozão, o 05 portanto, que faltava à confraria dos manos Bolsonaro.

Quanto ao filme, realizado, produzido e interpretado pelo entulho de Hollywood, mas cinco vezes mais caro que O Agente Secreto, indicado a quatro Óscares, deve estar menos para versão de King Lear ou de Os Irmãos Karamazov e mais para versão série B da saga dos irmãos Corleone.

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