Sem manifestações populares ilegais como a que Álvaro Pais convocou em Lisboa, em 1383, para acudir ao Mestre de Avis, D. João I dificilmente teria chegado a rei e Portugal poderia ter perdido a independência.
Sem manifestações populares ilegais, sem a tomada da Bastilha e sem as revoltas camponesas de 1789, em França, a ideia da igualdade de todos os cidadãos perante a lei não teria prevalecido no Ocidente.
Sem manifestações ilegais como as que acompanharam a Revolução Liberal de 1820, no Porto e em Lisboa, Portugal não teria evoluído para uma monarquia constitucional com separação de poderes.
Sem manifestações populares proibidas como a de Hyde Park, em Londres, em 1866, o direito ao voto não teria sido alargado e a liberdade de expressão e de protesto não teria sido, mais tarde, consagrada na lei.
Sem manifestações ilegais, sem as barricadas e sem os confrontos de março de 1871, em Paris, não teria surgido o primeiro governo operário da história.
Sem manifestações populares, sem as greves, sem os confrontos e sem as mortes ocorridas em Chicago, em 1886, ainda seria normal trabalhar 16 horas por dia.
Sem as manifestações, as prisões e as greves de fome das sufragistas do século XX, as mulheres não teriam conquistado o direito de voto.
Sem manifestações populares, sem as greves e sem as ocupações de fábricas em França, em 1936, os trabalhadores não teriam conquistado duas semanas de férias pagas, a semana de 40 horas e o reforço da contratação coletiva.
Sem manifestações populares ilegais, sem as greves dos trabalhadores agrícolas do Alentejo e do Ribatejo, em 1962, a jornada de oito horas não teria sido, na prática, apesar da ditadura, imposta aos grandes agrários.
Sem manifestações ilegais como as que Martin Luther King promoveu em 1963, a segregação racial ainda estaria inscrita na lei dos EUA.
Sem manifestações populares, sem as barricadas estudantis, sem as greves de maio de 1968, em França, os salários não teriam subido, não se retomaria o caminho para as 40 horas semanais de trabalho e a libertação sexual das mulheres europeias teria demorado muito mais.
Sem manifestações populares como a revolta de Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, a luta pela igualdade dos homossexuais teria recuado.
Sem manifestações populares junto às prisões portuguesas, em abril de 1974, a libertação de todos os presos políticos do regime fascista teria sido adiada.
Sem manifestações populares, sem as ocupações de casas e sem as Comissões de Moradores de 1974 e 1975, em Portugal, o programa de habitação SAAL, com a participação das famílias, não teria construído muitas casas para quem vivia em barracas.
Sem manifestações ilegais nas cidades da Alemanha de Leste, em 1989, o Muro de Berlim não teria caído.
Sem manifestações populares como as de 15 de setembro de 2012, em Portugal, o Governo de Passos Coelho teria conseguido alterar a TSU e aumentar de 11% para 18% a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social, reduzindo a das empresas.
Sem milhares e milhares de manifestações ilegais ocorridas ao longo da história –] desde a greve de 1159 a.C. dos trabalhadores da necrópole de Deir el-Medina, no Antigo Egito, no reinado de Ramsés III, para exigir o pagamento de rações alimentares em atraso –] o direito à manifestação nem sequer existiria, hoje, na lei.
Como seria, afinal, a nossa Civilização Ocidental se não se fizessem manifestações populares e até, de vez em quando, ilegais?