Os chamados Peregrinos do Mayflower, que se instalaram em 1620 na América, abriram o Massachusetts à colonização britânica, mas sobretudo foram os primeiros de várias vagas de puritanos, que procuravam no Novo Mundo uma vida menos moldada pelas regras da Igreja Anglicana. Foram esses puritanos que, ainda na primeira metade do século XVII, fundaram a mais antiga universidade no território que hoje corresponde aos Estados Unidos: Harvard.
Localizada na cidade de Cambridge, separada de Boston pelo rio Charles, Harvard é hoje considerada por muitos como a melhor universidade do mundo. O Shangai Ranking continua, aliás, a colocar o instituição americana em 1.º lugar na lista divulgada há poucos dias. E quando digo continua, devo sublinhar que já era número um em 2003, quando a classificação internacional foi criada pela Universidade Jiao Tong, de Xangai.
O puritanismo inicial foi evoluindo, à medida que o Massachusetts se transformava num dos mais dinâmicos centros económicos e intelectuais dos futuros Estados Unidos. E oito antigos alunos de Harvard estiveram entre os signatários da Declaração de Independência a 4 de julho de 1776, entre eles John Hancock, famoso por a sua assinatura ser a primeira, e John Adams, o homem que viria a ser o segundo presidente americano, sucedendo a George Washington. Aliás, vários presidentes dos Estados Unidos formaram-se lá: nomes como John Adams e o seu filho John Quincy Adams, mas também os dois Roosevelt, John Kennedy ou Barack Obama.
Ou seja, houve presidentes eleitos nos séculos XVIII, XIX, XX e XXI que estudaram na universidade que deve o nome a John Harvard, que logo nos primórdios doou a sua biblioteca para benefício dos estudantes, da época e futuros. Também mais de centena e meia de Prémios Nobel estão ligados a Harvard, mais do que qualquer outra universidade. Entre os professores recentemente distinguidos estão nomes como Gary Ruvkun e Claudia Goldin, ele em Medicina e ela em Economia.
A metodologia do Shangai Ranking é complexa e tem, por exemplo, em conta os Prémios Nobel. Também tem recebido críticas e os seus resultados divergem de outras listagens prestigiadas, como a Times Higher Education, que coloca Oxford em 1.º lugar e Harvard em 5.º.
Mas é muito relevante que sendo feita na China, a grande rival dos Estados Unidos pela supremacia global, a superioridade de Harvard e das universidades americanas seja reconhecida. Oito das dez primeiras são universidades dos Estados Unidos, com as britânicas Oxford e Cambridge a serem as outras duas. Curiosamente, na listagem Times Higher Education, sete das dez primeiras são americanas e três britânicas. E a segunda da lista é o Massachusetts Institute of Technology, o MIT, também sedeado em Cambridge, Massachusetts, e que foi assim batizada ainda no tempo colonial em homenagem à Cambridge inglesa exatamente pelo prestígio da universidade. Os puritanos eram nessa época súbditos britânicos.
Harvard, pela origem e pelo desempenho ao longo de quase quatro séculos, simboliza bem a liderança dos Estados Unidos no que diz respeito ao Ensino Superior de topo. No Shangai Ranking a N.º 2 é Stanford, e a terceira é o MIT. Cambridge surge em 4.º lugar como primeira não-americana. Oxford, em 7.º, é a outra britânica. Berkeley (5.º), Princeton (6.º), Columbia (8.º), Chicago (9.º) e Caltech (10.º) são as restantes do Top-10.
A primeira universidade chinesa surge em 18.º, e é a Tsinghua, de Pequim. A segunda chinesa é a Universidade de Pequim (22.º). A Universidade de Zhejiang surge na posição 24 e a Jiao Tong, de Xangai, está em 27.º. A progressão das universidades chinesas é notória ao longo dos anos, e os próprios autores do Shangai Ranking destacam serem agora 16 no Top-100. Se incluirmos Hong Kong, são 18 universidades chinesas nas cem melhores. As americanas são 37, o que ainda mostra uma vantagem.
E a Europa? Se somarmos as oito britânicas, as cinco suíças e a norueguesa às da União Europeia teremos um total de 30. Só da UE são 16, com Alemanha e França a destacarem-se com quatro cada. Apenas seis países dos 27 estão representados no Top-100.
Portugal tem seis universidades no Shangai Ranking (Top-1000) com as melhores a serem as de Lisboa e do Porto, numa posição 301-400, e a de Coimbra, numa posição 401-500.
Alguns países fora da Europa que merecem destaque também são a Austrália, com cinco no Top-100, Canadá com três, e Japão e Israel com duas cada.
A pujança dos países mede-se de muitas formas. E a Educação é uma delas. Esta classificação das melhores universidades dá-nos pistas. A liderança americana é fortíssima, a progressão chinesa é admirável, e a Europa ainda conta, mas a UE no seu conjunto faria muito melhor se não tivesse havido o Brexit.
O mundo continua a mudar de modo acelerado, veremos como evolui nos próximos anos o Shangai Ranking.