O que farias se fosses o doutor Silva?

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(Continuação)

Como já contei, em 1975, Maria do Carmo e José Silva passaram a noite juntos, mas separaram-se pela manhã do dia seguinte, ainda antes do pequeno almoço.

Carmo foi transferida, a seu pedido, para outro ministério, onde prosseguiu a carreira de funcionária administrativa.

José Silva continuou a desempenhar o seu cargo de chefia no mesmo local. Mais tarde, viria ser promovido a diretor de Serviços. Durante estes 10 anos nunca mais voltou a ver Maria do Carmo. Quase esquecera a espantosa noite vivida com a sua antiga secretária. Para ele, terá sido um acontecimento de tipo relâmpago, que se esfumaçou ao longo dos anos até a um certo dia do verão de 1985.

Ora, no final da tarde de um sábado quente, Silva estava na fila da bilheteira da Estação do Rossio a comprar um bilhete de comboio para ir visitar amigos em Sintra. Por mero acaso, inesperadamente, uma senhora com um filho pela mão, ao reconhecê-lo no meio da multidão, foi junto dele e perguntou-lhe:

— Como está, senhor doutor?

Silva demorou alguns instantes para a identificar. Respondeu ao cumprimento de Maria do Carmo, apenas com a conversa habitual para essas situações comuns:

— Muito bem, obrigado. E a Maria do Carmo como vai? Na Baixa, às compras?

— Nós lá em casa estamos excelentes. Obrigada. Eu e o meu filho regressamos agora a Queluz, onde continuamos a residir.

— Desejo-vos, então, muita sorte e boa saúde. Felicidades.

Depois das despedidas, passados uns segundos, José Silva concluiu que a criança era seu filho. Voltou a olhar e viu a silhueta de Maria do Carmo a afastar-se, com um rapazinho agarrado ao seu braço. Repentinamente, tinha de decidir se iria ou não atrás dela para olhar de frente para a criança. Não sabia o que seria melhor, tanto para si mesmo como para a mãe e filho. Sentiu uma estranha agitação interior. Naqueles momentos queria saber como fazer e o que seria mais adequado perante tão extraordinária circunstância. Sentiu uma imensa sucessão de emoções intensas. Uma tempestade de pensamentos contraditórios. Ao rubro. Por fim, decidiu não ir. Não foi. Provavelmente pretendeu regressar à tranquilidade da sua vida anterior. Mesmo assim, as dúvidas persistiram por muito tempo.

Questões para reflexão de cada leitor:

- O que faria no lugar do doutor José Silva? Iria atrás de Maria do Carmo para conhecer o seu filho?

- Maria do Carmo deverá continuar a guardar o segredo entre ela, seu marido e Silva? Nada dizer à criança? Nunca?

- Uma vez que em 1975, a procriação não dispunha das atuais soluções médicas de fertilização, o que teria feito no lugar de Maria do Carmo? E se fosse o seu marido?

franciscogeorge@icloud.com

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