O que esquecemos com Luís Neves?

Pedro Tadeu

Jornalista

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Nos últimos três meses, o Caso Luís Neves tornou-se o centro da política portuguesa. Há, evidentemente, matéria que exige investigação, explicações e consequências, se forem apuradas responsabilidades. Um ministro não fica dispensado de prestar contas pelo facto de ser atacado pelo Chega. Mas a repetição do caso até ocupar totalmente o horizonte político exige outro escrutínio: o que deixamos de discutir enquanto discutimos sempre a mesma pessoa?

Neste verão, o Estado acordou comprar a Amancio Ortega 13,7% da REN. Recuperar intervenção pública nas redes de energia pode servir o país. Mas que poder dá essa participação? Que influência terá nas tarifas e no investimento? E como se justifica o alegado preço de 380 milhões de euros, acima da cotação em bolsa? Não discutimos isto.

Ao mesmo tempo, avança a privatização da TAP, com propostas da Lufthansa e da Air France-KLM. Por que motivo é estratégico regressar à REN e entregar a maior parte da transportadora aérea? Quem decidirá as rotas, o emprego, a manutenção e o futuro do Aeroporto de Lisboa como centro de ligações? Que garantias sobrevivem à assinatura do contrato? Quanto recuperará o Estado do dinheiro que os contribuintes colocaram na empresa? Não discutimos isto.

Em julho, Portugal acordou comprar três fragatas italianas, comprometendo milhares de milhões de euros. Que necessidades militares justificam a escolha? Que alternativas foram comparadas? Quanto custarão o financiamento, a operação e a manutenção? Que trabalho fica em Portugal? Não discutimos isto.

Os combustíveis voltaram a subir. O Governo prolongou medidas fiscais, mas isso não encerra a discussão. Que parte do aumento corresponde ao petróleo, à refinação, às margens e aos impostos? Quem verifica essas contas? Que proteção existe para quem precisa do carro para trabalhar e não tem transporte público? Por que é que não se age sobre outros fatores que encarecem o preço? Não discutimos isto.

Na Educação, a classificação digital dos exames produziu atrasos, erros e alterações de notas que afetaram centenas de milhares de alunos. Quem decidiu avançar, com que testes e perante que avisos? Como se demonstra que nenhum aluno foi prejudicado no acesso ao Ensino Superior? Corrigir uma pauta não apaga a responsabilidade política de ter posto em causa a confiança na avaliação - e isto está a ser esquecido.

Na Europa, agrava-se a tensão com a Rússia. O risco de confronto entre potências nucleares deveria mobilizar um debate sobre como evitar uma guerra global. Que compromissos assume Portugal? Que limites estabelece? Que iniciativas diplomáticas propõe? Uma decisão que pode envolver o país numa guerra merece mais do que a reprodução de declarações dos aliados. Aqui, o silêncio é total.

Estes assuntos tiveram notícias, é verdade, e discussão pela rama, concedo. Mas faltou continuidade, confronto de alternativas e exigência de respostas. Falamos muito mais da piscina e do atrelado de Luís Neves, pois não temos espaço para debater as outras decisões, que atingem milhões de pessoas.

A moção de censura do Chega tornou visível esta captura da agenda. Subordinar o debate aos interesses circunstanciais de André Ventura retira ao país a lucidez para discutir o que objetivamente mais pesa na sua vida.

Investigue-se Luís Neves, claro. Mas escrutine-se, a sério, a governação, coisa que o Chega não sabe ou não quer fazer.

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