O que Ed Sheeran não tem em comum com Víctor Jara

Vítor Moita Cordeiro

Nasceu em Lisboa em 1978. Contador de histórias, apaixonado por música antiga, etnografia e cinema esquecido. É na política prática, aquela que move o mundo, que encontra os desafios que partilha no jornal. Trabalha no Diário de Notícias desde 22 de agosto de 2023.

Publicado a: 

A arte é (ou deveria ser) sempre de intervenção. Qualquer artista que tenha adquirido uma enorme notoriedade, que lhe tenha permitido mover uma legião de seguidores fanáticos, tem o poder de condicionar mentalidades e, como diria o Tio Ben ao Peter Parker, “com um grande poder vem uma grande responsabilidade”. Talvez tenha sido por isso que, em maio de 2020, André Ventura tenha, muito provavelmente por medo das consequências que isso teria para o seu partido, lamentado que um jogador de futebol se metesse na política, reagindo deste modo a Ricardo Quaresma, que na altura, movido por ofensas que o líder do Chega lançara contra a comunidade cigana, disse: “Chega de Chega.” O slogan não proliferou e não foi iterado, mas tinha tudo para se tornar um lema nacional, tanto pela forma como pelo conteúdo. E também pela justiça que acarretava perante a discriminação de toda uma etnia que, pelo menos durante cinco séculos, ajudou a construir os alicerces daquilo que hoje conhecemos como Portugal.

Voltemos à música. A arte (e o desporto) sempre tiveram o poder e a responsabilidade de moldar o mundo, de preferência de acordo com a opinião pública. Diria que a arte em geral é uma amálgama de expressões que são inevitavelmente democráticas, porque a voz dos seguidores faz-se ouvir através dos artistas. É por isso que aprecio música barroca e punk de igual modo.

Ed Sheeran
Ed SheeranFoto: Rock in Rio

François Couperin, um compositor francês do período barroco popularizado pelas obras virtuosas para órgão e cravo, no seu Le Second livre de pièces de clavecin deixou para a posteridade uma obra (na verdade, cinco peças) intitulada Les Fastes de la grande et ancienne Mxnxstrxndxsx. Trata-se de uma sátira escrita em 1716 a uma corporação de músicos conhecida como Ménestrandise (o nome aparece cifrado por Couperin por uma questão de direitos autorais), que queria obrigar todos os músicos que ensinavam a arte de tocar cravo a subjugar-se aos seus critérios sob o risco de não poderem exercer essa atividade a não ser que tivessem um certificado emitido por ela.

Couperin, com humor, usou todos os recursos para que os ouvintes destas cinco peças percebessem que a arte não tem donos e que a Ménestrandise não podia apropriar-se da liberdade de ensinar cravo. É uma mensagem cifrada, mas mostra que a música sempre teve este poder.

Recentemente, o músico e compositor Ed Sheeran veio admitir publicamente que procurou sempre manter-se imparcial em termos políticos, tendo desfeito essa tendência só depois do rapper Macklemore, que estava previsto como um dos artistas que acompanharia uma das sua digressões, ter sido cancelado por defender a causa palestiniana. Claro que Ed Sheeran, no alto da sua cobardia, não tomou imediatamente esta posição face ao cancelamento, tendo sido movido a pronunciar-se publicamente apenas depois de outros artistas, solidários com Macklemore, se terem afastado da digressão.

Ed Sheeran foi curto e robótico na declaração, talvez com uma intencionalidade trabalhada para agradar ao público, garantindo que não haveria perda de seguidores. Depois de condenar, e bem, o ataque do Hamas ao Festival Nova, em Israel, no dia 7 de outubro de 2023, que provocou 1139 mortos, mostrou-se finalmente consternando perante as largas de dezenas de mortos na Faixa de Gaza resultantes da retaliação israelita, que continua até hoje abafada por um conformismo inexplicável da comunidade internacional.

Há vozes que se erguem perante esta barbárie, mas Ed Sheeran foi arrastado para esta tomada de decisão pela opinião pública. Se ele já tivesse uma opinião formada talvez não a devesse ter calado, porque é essa a missão da arte, também.

Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Júlio Pereira e tantos outros nunca se calaram perante a injustiça e a ditadura no mundo. Também hoje não se calariam perante a Palestina.

No Chile, Víctor Jara, um músico de intervenção que nunca ficou em silêncio, foi assassinado pelas forças militares de Augusto Pinochet, que no dia 11 de setembro de 1973 depuseram o presidente chileno Salvador Allende. Professor universitário, Víctor Jara, antes de morrer, levou coronhadas nas mãos. Os soldados retiraram-lhe a principal arma antes de o matarem: as mãos que utilizava para compor música e para a tocar (e para escrever, tendo em conta que o músico também era professor de jornalismo).

Mas nenhum deles morreu, porque a arte honesta que fizeram perdurou. Talvez Ed Sheeran também perdure.

Jornalista

Diário de Notícias
www.dn.pt