Era uma vez mais uma história na Lisboa de Carlos Moedas, que não tem lugar nas suas redes sociais, que dispensa adjetivos, porque afinal, os factos bastam. A epopeia do Quartel da Graça. Um monumento nacional, no coração da freguesia de São Vicente, foi entregue em 2019 a um grupo privado com a promessa de um hotel de cinco estrelas, um investimento de cerca de 30 milhões de euros e uma renda anual próxima de 1,79 milhões a entrar nos cofres do Estado. Estamos em 2026 e o que temos é um edifício que se degradou ao abandono durante mais de meia década, obras que só arrancaram em março deste ano, muito para lá do prazo contratual, que apontava para o final de 2023, e um Estado que, ao que tudo indica, não está a receber aquilo a que tem direito.A novidade, grave, conhecemos há poucos dias. O concessionário pediu a revisão do contrato, invocando “reequilíbrio financeiro”, e deixou de pagar a renda. Mais surpreendente do que o pedido é a resposta: enquanto a Estamo analisa, as obrigações da concessionária ficam suspensas. Por outras palavras, quem falhou todos os prazos retira do próprio incumprimento o fundamento para deixar de pagar. E o Estado, em vez de exigir, parece consentir. Os montantes acumulados que já deveriam ter entrado nos cofres públicos aproximam-se dos quatro milhões e meio de euros. Não se sabe sequer quanto foi efetivamente pago. É esse o nível de opacidade a que chegámos.Não é por acaso que a Junta de Freguesia de São Vicente teve de recorrer aos tribunais para aceder a documentos que deveriam ser públicos. Não é por acaso que se multiplicam, em vários quadrantes políticos, os pedidos de esclarecimento ao Governo. Quando uma autarquia precisa de uma intimação judicial para saber o que se passa com património que é de todos, alguma coisa falhou e falhou em quem tinha o dever de fiscalizar.E aqui não há como desviar o olhar de duas responsabilidades. A do Governo, que tutela este contrato através das Finanças e que, perante um incumprimento prolongado e reconhecido, escolhe a passividade em vez da firmeza. E a da Câmara de Lisboa, de Carlos Moedas, que sobre um imóvel classificado, no centro da sua cidade, parece ter pouco a dizer e ainda menos a fazer. A salvaguarda do interesse público não se delega nem se adia à espera de que o problema se resolva sozinho. Em Lisboa, infelizmente, conhecemos bem essa tentação de empurrar com a barriga.Não escrevo isto para alimentar uma guerra de trincheiras. Escrevo-o precisamente pelo contrário. O futuro do Quartel da Graça é demasiado importante para ficar refém de cálculos partidários. Aquilo que se exige agora é convergência: que o Governo esclareça com transparência o estado do processo e os valores em dívida, que a autarquia assuma o seu papel, e que todos, independentemente da cor política, coloquem o interesse dos lisboetas acima de tudo. Um bairro pressionado pela especulação e pela perda de residentes merece respostas, não silêncios. O património é nosso. A conta, também. Está na hora de exigir contas a quem as deve.