O PS precisa de se encontrar

Aline Hall de Beuvink

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

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O Congresso do Partido Socialista, realizado em Viseu, expôs com clareza uma inquietante evidência: o partido permanece num limbo estratégico, incapaz de definir com nitidez o seu lugar no actual sistema político. Entre a retórica da oposição firme e a disponibilidade para o compromisso, o PS parece aprisionado numa ambiguidade que fragiliza a sua credibilidade.

A questão central mantém-se, portanto, sem resposta: pretende o PS afirmar-se como uma oposição determinada ou como um parceiro potencial de negociação? O que emergiu deste congresso foi, sobretudo, um “nim” político: uma hesitação estrutural entre confronto e acomodação. José Luís Carneiro promete não se calar perante os erros do Governo, mas simultaneamente insiste numa postura construtiva e dialogante, reiterando a ideia de uma oposição responsável e “propositiva”.

Ora, esta duplicidade não esclarece: dilui.

Também o próprio congresso reflectiu essa indefinição. Apesar de um discurso oficial de mobilização e ambição reformista, a participação revelou-se escassa e o ambiente muito pouco galvanizador. Um partido que, há poucos anos, governava com maioria absoluta, surge hoje diminuído, quase retraído, como se aguardasse, em suspenso, por melhores circunstâncias políticas. E é óbvio que é exactamente o que está a fazer: os lobos estão à espreita pela imolação do cordeiro.

Após as legislativas de 2025, o PS caiu, pela primeira vez, para terceiro lugar parlamentar, realidade essa que exige uma redefinição profunda. Porém, a reflexão necessária para compreender essa hecatombe tarda. O partido parece oscilar entre a tentação de radicalização e a manutenção de uma moderação indefinida, sem assumir plenamente nenhuma das vias. Pior: sem saber bem o que quer e quais são as suas linhas estratégicas. Talvez porque não tenha nenhuma estratégia... É um partido dividido ao meio, entre os radicais mais esquerdistas e os saudosistas soaristas.

E esta liderança não contribui para dissipar dúvidas: Carneiro, eleito sem oposição interna, carece ainda de densidade mobilizadora e de uma visão distintiva que agregue o partido e convença o eleitorado. A sua afirmação permanece ténue: é mais promessa do que evidência.

No essencial, o PS sai de Viseu como entrou: indeciso, hesitante, por definir. Ora, num contexto político exigente, a indefinição não é neutral: é um factor de erosão. Um partido que não sabe o que quer, dificilmente será reconhecido como alternativa. Exige-se, por isso, mais do que retórica: exige-se clareza. O PS precisa de se reencontrar, de se redefinir e, sobretudo, de assumir, sem ambiguidades, o papel que pretende desempenhar.

Caso contrário, arrisca-se a uma irrelevância progressiva no espaço político português.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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