Há investimentos que se medem pelo dinheiro gasto; outros, pelo património que deixam. O balanço do PRR na Cultura obriga-nos precisamente a fazer essa distinção.
Foram mobilizados 330,4 milhões de euros para a Cultura: 243,2 milhões destinados ao património cultural e 87,2 milhões às redes culturais e à transição digital. Os números são expressivos. Foram concluídas intervenções em 83 museus, monumentos e palácios públicos, ultrapassando a meta inicialmente fixada em 81; mais de 500 infra-estruturas culturais foram modernizadas, entre as quais mais de 300 bibliotecas e polos de leitura e mais de 170 cine-teatros e centros de arte contemporânea.
Mas talvez a transformação menos visível seja precisamente a que poderá revelar-se mais duradoura: a digitalização. Cerca de 24 milhões de imagens da Biblioteca Nacional de Portugal e da Biblioteca Pública de Évora foram digitalizadas, a par de 18,7 milhões de documentos da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, mais de 61 mil registos museológicos e mais de 1.350 filmes portugueses. Criaram-se ainda 67 visitas virtuais.
Seria, contudo, precipitado confundir o cumprimento das metas do PRR com a resolução dos problemas estruturais da Cultura. No final de Agosto, o organismo responsável pelo património garantia o cumprimento das metas e indicava que 99% do financiamento destinado ao património se encontrava em execução, mas reconhecia que algumas intervenções teriam trabalhos complementares para além do calendário do Plano.
E é aqui que começa o verdadeiro balanço. Restaurar um palácio, modernizar um museu ou digitalizar um arquivo é um começo, não um fim. O património exige conservação permanente, pessoal especializado, investigação, programação e capacidade financeira para manter aquilo que hoje se recupera. Sem isso, o investimento extraordinário corre o risco de se transformar apenas numa pausa entre dois ciclos de degradação.
O PRR deixou, sem dúvida, uma marca relevante na Cultura portuguesa. Mas a sua verdadeira medida não estará nos milhões executados até 2026. Estará naquilo que conseguirmos conservar, estudar, abrir ao público e transmitir em 2036.
Porque a Cultura não se salva apenas restaurando o passado. Salva-se quando somos capazes de lhe garantir futuro. É estarmos atentos aos passos seguintes.