Faltam pouco mais de dez dias para o fim do ano letivo. Não temos, hoje, dados fiáveis sobre o número de alunos sem professor a pelo menos uma disciplina. Mais: não estamos, hoje, mais perto de ter uma compreensão abrangente do problema do que estávamos há um ano. E essa constatação é grave. É grave por várias razões e já iremos a cada uma delas.Em primeiro lugar é preciso recordar como chegamos até aqui. O problema da falta de professores e, consequentemente, de alunos sem docente a uma ou várias disciplinas, não é recente nem tem origem numa qualquer medida isolada, com consequências desastrosas. Resulta de muitos anos de políticas de Educação que desembocaram num tipo de planeamento que assiste, impávido, a agrupamentos escolares com muito mais alunos do que conseguem aguentar e outros com dificuldade para formar turmas. Resulta de as escolas estarem a ser servidas por professores, muitos desmotivados, que não se reveem nas progressões de carreira. Resulta de assimetrias económicas e de infraestrutura tão sérias entre as regiões , que nem com incentivos os municípios conseguem captar professores para as suas escolas. E resulta de políticas públicas incapazes de compreender que a formação de novos professores não está a conseguir repor, quanto mais reforçar, os que se aposentam.Repito: nada disto nasceu com este governo. Nem com o anterior (da mesmíssima cor). Nem com os que lhe antecederam, que eram suportados por outros quadrantes políticos.O que atual ministro da Educação trouxe foi um desejo confesso de tornar públicos os dados que permitem a todos os interessados - escolas, encarregados de educação, alunos e sociedade civil - avaliar o problema e tomar decisões de vida de acordo com ele. Não foi a única coisa que trouxe. Fernando Alexandre também foi o protagonista de uma precipitação polémica em novembro de 2024, quando disse que o número de alunos sem professor se tinha sido reduzido em 90%. Semanas depois admitiu que tinha apresentado “dados errados” e “não credíveis”.Teve o discernimento e o mérito de encomendar uma auditoria externa sobre os dados do Ministério da Educação. Meses depois, já em 2025, a consultora KPMG identificou várias “lacunas e insuficiências” que punham “em causa a solidez dos dados reportados pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, referente ao número de alunos sem aulas a uma disciplina, bem como a possibilidade de verificação desse mesmo número” para anos letivos anteriores. Tradução: o sistema não permitia apurar com exatidão quantos alunos estavam sem professor ou sem aulas.Fernando Alexandre e a sua equipa prometeram corrigir o problema para que, na próxima vez que apresentasse números, os dados “fossem à prova de bala”. Não chegaram a ser submetidos a esse teste de esforço, uma vez que não mais foram tornados públicos. Deixar de se falar do número de grávidas a ter crianças em ambulâncias, não significa que não esteja a acontecer. Punir os bombeiros que reportem problemas na coordenação do combate aos fogos, não significa que agora tudo corra sobre rodas. Tal como deixar de divulgar dados sobre o número de alunos sem professor, não significa que toda a população estudantil portuguesa tenha passado o ano sentada a ter aulas nas turmas. Faltam pouco mais de dez dias para o fim do ano letivo e não temos, hoje, dados fiáveis sobre o número de alunos sem professor a pelo menos uma disciplina. E esta constatação é grave. É grave porque tende a impedir ações concretas para mitigar o problema; é grave porque impede o escrutínio sobre os decisores que prometeram agir nesta matéria; é grave porque veda aos encarregados de educação a informação vital que precisam para tomar decisões cruciais para a educação dos seus filhos. Politicamente, esta constatação também é grave. Em vários graus. É mau se o Ministério da Educação tem a informação e não a quer divulgar por ser politicamente sensível. É péssimo se nesta altura do campeonato não tem sequer ideia dos verdadeiros números em causa.