In my End is my Beginning T.S. Eliot É difícil não falar aqui, no meio destas prosas soltas, a resvalar aqui e além em confissões pessoais, naquilo que senti ao confrontar-me com este livro póstumo de Nuno Júdice, primeiro poema que inaugura o seu encontro com a morte, essa margem incontornável que envolve de luz negra toda a poesia.Como apontou certeiramente Tatiana Faia, na apresentação que fez deste livro (Primeiro Poema, Dom Quixote, 2026), aquando do seu lançamento, os últimos versos são o explícito olhar sobre a morte do poeta que maior lucidez sobre a poesia revelou em todo o seu percurso. Organizado, com cuidado atento e permanente fidelidade ao que seria desejo do autor, por Manuela Júdice e Ricardo Marques, este livro culmina nos versos que a seguir reproduzo:o que eu queria era medir a distância a partir de um relógiocuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e ésempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parounem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falsorelógiode luz radioactiva que se pode ver do fundo dacarruagem,se alguém estiver muito interessado em saber quehorassão e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça.Maurice Blanchot, em La littérature et le droit à la mort, considera a escrita literária como a palavra essencial que nasce do silêncio e da ausência e onde o autor se apaga para dar lugar a uma voz impessoal. Por isso, considera a criação literária como uma experiência de “morrer sem morte”.Em toda a poesia de Nuno Júdice, o autor apaga-se para dar lugar a um sujeito poético irónico e mesmo, por vezes, divertido. Tornando menos grave essa ausência e dando máscaras à impessoalidade, Nuno Júdice não deixa de entrar plenamente, com a sua poesia, nessa separação das coisas e da vida que funda a palavra literária, mesmo nos belíssimos poemas de amor que põe na boca de Pedro dirigindo-se a Inês ou em múltiplos dizeres de amor desse “ser suposto” (Emily Dickinson) em que todos os grandes poetas transformam a sua subjetividade.Mas o choque e a revelação que o último (verdadeiramente o último) poema de Nuno Júdice me trouxe foi esse olhar soberano sobre a morte, quando os relógios param e está na altura de recomeçar do zero. Do zero que é o vazio da morte, que a poesia conhece, mas em que por fim o poeta nos deixa, para que nós leitores recomecemos em cada leitura de cada poema a dar sentido às palavras da poesia.Indo agora talvez demasiado longe na confidência pessoal, tenho andado bloqueado na minha escrita poética pela tentação da prosa, como já escrevi, mas descobri, com a perda do Nuno, que a sua falta foi também uma das causas deste bloqueio.A amizade do Nuno vem de muito longe na minha vida. O meu projeto poético tem pouco a ver com o seu, mas a palavra poética que nos deixou está sempre presente na minha consciência. Entre os muitos vazios que se me abrem nesta difícil fase da vida, a perda do Nuno avulta, e com a leitura do Primeiro Poema (todos os poemas são um primeiro poema) essa perda ganhou um relevo ainda mais nítido na minha consciência.Mas ele diz-nos como devemos reagir à sua ausência:Mas não te obstines: nada do que aqui está, ouestiver para vir, precisa de mim.Dirigindo-se a nós do próprio lugar da morte, ele insta-nos a recomeçar (recomeçar do zero, onde tudo recomeça) e recomeçar é o nosso trabalho de leitores, que em cada leitura dos seus poemas vimos recomeçar a obra infinita que ele nos deixou.Nuno Júdice fica assim sempre connosco.t Dedicado à Manuela e à Didas, os dois pilares da nossa amizade