O poder local começa na proximidade

Nuno Piteira Lopes

Presidente da Câmara Municipal de Cascais e vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses

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O mês de outubro é habitualmente associado a mensagens de reflexão, recomeço e valorização do que é essencial na vida, como a saúde, a família e o bem-estar.

É também um período em que o debate público se centra particularmente no bem-estar psicológico, na saúde mental e na necessidade de reforçar as respostas de saúde pública.

Os dados ajudam-nos a perceber a dimensão do desafio. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas na Região Europeia vive com uma condição de saúde mental e até uma em cada três pessoas com uma dessas condições não recebe o tratamento de que necessita. Em Portugal, estimativas do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) apontavam para mais de 2,25 milhões de pessoas com uma perturbação de saúde mental em 2019, cerca de 22% da população, acima da média da União Europeia, de 16,7%.

Perante esta realidade, coloca-se uma questão: qual é o papel do poder local?

As autarquias não substituem o Estado ou o Serviço Nacional de Saúde. Mas podem estar mais perto das pessoas, conhecer os territórios e ajudar a construir respostas de proximidade. É nesta dimensão que podem fazer a diferença: através da proximidade, da prevenção e da criação de redes.

Em Cascais, estes são três eixos fundamentais.

Os novos Balcões SNS 24, inaugurados em São Domingos de Rana e em Carcavelos e Parede, são um exemplo concreto de proximidade. Não substituem as respostas clínicas do SNS, mas aproximam serviços e informação das comunidades, facilitando o acesso dos cidadãos.

Porque falar de saúde mental não significa apenas falar de consultas, psicólogos ou medicação. A saúde mental também é influenciada pela solidão, pelo isolamento, pela violência, pela falta de apoio, pelo envelhecimento e pela existência de redes comunitárias.

É aqui que entram respostas como a Casa Flor LAPS, criando condições para que mulheres e crianças vítimas de violência doméstica possam encontrar proteção e iniciar um novo caminho. E entra também o trabalho diário de instituições como a AJU, dos seus profissionais e voluntários, muitas vezes na primeira linha do apoio às pessoas e às famílias.

Nenhuma autarquia responde sozinha a desafios desta dimensão. É preciso juntar município, Estado, instituições, associações, profissionais e comunidades.

Mas cuidar de uma comunidade é também cuidar daquilo que lhe dá identidade e sentido de pertença. A Festa do Animal lembra-nos a responsabilidade e o respeito pela vida. A Rua do Fado mostra-nos como a cultura cria encontro, identidade e memória.

São temas diferentes, mas têm algo em comum: falam da forma como queremos viver juntos.

Então, qual é afinal o papel do poder local?

Estar perto. Prevenir. Criar redes. Identificar problemas antes de se tornarem emergências. E criar condições para que as pessoas não enfrentem sozinhas os desafios da vida.

Outubro termina, mas os desafios permanecem. Talvez seja essa a verdadeira importância destes momentos de reflexão: lembrar-nos daquilo a que não podemos deixar de prestar atenção durante o resto do ano.

Porque falar do que realmente importa é também decidir aquilo a que damos atenção enquanto comunidade.

Porque Cascais é para toda a vida.

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