A posição do Partido Comunista Português após a mais recente Cimeira da NATO não constitui novidade. Desde a fundação da Aliança Atlântica, em 1949, o PCP vê nela um instrumento de expansão do poder norte-americano e uma ameaça à paz mundial. Mudaram os protagonistas, desapareceu a União Soviética, caiu o Muro de Berlim e alterou-se profundamente a ordem internacional. O discurso comunista, porém, permanece praticamente inalterado. É uma demonstração de coerência ideológica, mas também de extraordinária resistência à realidade.A História mostra-nos uma verdade incómoda: a paz nunca dependeu apenas da vontade dos pacíficos. Dependeu, quase sempre, da capacidade de dissuadir quem pretendia alterar fronteiras ou expandir impérios pela força.A política de apaziguamento seguida em Munique, em 1938, assentou precisamente na ilusão de que um regime expansionista abandonaria voluntariamente os seus objectivos. Menos de um ano depois começava a Segunda Guerra Mundial.Foi dessa lição que nasceu a NATO. O princípio da defesa colectiva tornou qualquer ataque contra um aliado demasiado dispendioso para um potencial agressor. A dissuasão transformou-se, assim, num instrumento de paz. Durante mais de sete décadas, nenhum Estado-membro da NATO foi invadido por outra potência.Também importa recordar que a adesão à Aliança nunca foi imposta. Pelo contrário, foram dezenas de países que solicitaram livremente a sua entrada, sobretudo aqueles que viveram sob domínio soviético.Mais recentemente, a invasão russa da Ucrânia levou mesmo a Finlândia e a Suécia, historicamente neutras, a abandonarem essa posição e a integrarem a NATO. Não se tornaram mais belicistas; reconheceram simplesmente que a realidade estratégica havia mudado.É precisamente aqui que a argumentação do PCP revela a sua principal fragilidade. Ao denunciar a “escalada militar” da NATO, praticamente ignora a sua causa. Não foi a NATO que anexou a Crimeia em 2014, nem que invadiu a Ucrânia em 2022. Confundir causa e consequência é inverter a cronologia dos acontecimentos.Naturalmente, a NATO não está isenta de erros, como demonstram debates ainda hoje existentes sobre o Kosovo, o Afeganistão ou a Líbia. Mas reconhecer essas controvérsias não elimina a diferença fundamental entre democracias, onde as decisões podem ser escrutinadas, e regimes autoritários, que recorrem à força sem qualquer controlo interno.Também a ideia de que investir na Defesa implica sacrificar a Saúde, a Educação ou a Habitação constitui uma falsa alternativa. A História demonstra que nenhum Estado Social resiste se o próprio Estado deixar de conseguir proteger o seu território, as suas infra-estruturas críticas e a liberdade dos seus cidadãos. Não existe prosperidade duradoura sem segurança.Portugal, com a sua posição atlântica, a vasta Zona Económica Exclusiva e responsabilidades estratégicas relevantes, dificilmente conseguiria garantir isoladamente a defesa dos seus interesses. A pertença à NATO não diminui a soberania nacional; reforça-a através da defesa colectiva.A paz continua a ser o objectivo último. Mas há uma diferença essencial entre desejar a paz e garantir as condições para a preservar. Há quase dois mil anos, Vegécio resumiu essa realidade numa frase que permanece actual: Si vis pacem, para bellum – se queres a paz, prepara-te para a guerra.A História demonstra que a paz raramente foi preservada pela ausência de força. Foi preservada porque quem ponderava destruí-la sabia que o preço seria demasiado elevado. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico