O país que quer o talento, mas recusa a família

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Conheço um profissional extraordinário. Num mercado global onde já é difícil encontrar bons quadros, ele pertence a uma categoria ainda mais rara: a daqueles cuja competência, experiência e especialização não se substituem facilmente, nem em Portugal, nem, em certos domínios, no mundo.

Entrou numa empresa, fixou-se em Portugal, trabalhou, contribuiu, pagou impostos, formou pessoas, criou valor. Fez tudo aquilo que o país, de forma legítima, ambiciona quando fala em atrair talento internacional e reforçar a sua base produtiva.

E, no entanto, há mais de 3 anos que vive uma realidade incompleta: a sua família continua fora. Neste caso, “fora” não é apenas distância, é também exposição a um contexto de instabilidade no Médio Oriente, que torna cada dia mais exigente.

Esta não é uma história de falha deliberada. É, antes, o retrato de um sistema que, apesar das boas intenções e dos avanços já feitos, ainda não conseguiu responder com a rapidez que certas situações exigem.

Portugal tem dado passos importantes. Tem procurado afirmar-se como um destino aberto, qualificado, competitivo. Tem investido na captação de talento, na inovação, na internacionalização da sua economia. e isso deve ser reconhecido. Mas é precisamente quando o país sobe de ambição que surgem novos desafios de execução.

Porque a verdade é simples: talento não chega sozinho. Instala-se com a sua história, com os seus vínculos, com a sua família. e é nessa dimensão, humana e concreta, que se decide se um projeto de vida se enraíza ou permanece transitório.

Nenhum profissional de elevado nível toma decisões apenas com base em contratos ou condições fiscais. Decide com base naquilo que lhe permite viver com estabilidade, segurança e sentido de pertença. Decide onde pode construir, não apenas trabalhar.

E é aqui que esta história continua. Porque este profissional, apesar de tudo, continua. Continua a entregar resultados, continua a acreditar no projeto, continua a apostar no país. Mas começa, inevitavelmente, a fazer perguntas que muitos outros, em silêncio, também fazem:

Quanto tempo mais é razoável esperar? Até que ponto é sustentável viver dividido? Que sinais dá um país quando demora a resolver aquilo que mais importa na vida de uma pessoa?

Estas não são perguntas de confronto. São perguntas de maturidade.

E talvez seja este o momento certo para as colocar, não como crítica, mas como oportunidade. Uma oportunidade para alinhar ainda melhor aquilo que Portugal já diz querer ser com aquilo que, na prática, consegue entregar. Uma oportunidade para reforçar mecanismos que já existem, tornando-os mais ágeis em contextos específicos: perfis altamente qualificados, funções críticas, ou situações de risco comprovado.

Uma oportunidade para aproximar instituições – AIMA, rede consular, entidades governativas – e garantir respostas mais coordenadas, com previsibilidade e prazos claros.

Uma oportunidade para envolver também as empresas, que estão no terreno, que conhecem as pessoas, e que podem ser parte da solução na instrução e acompanhamento destes processos.

No fundo, uma oportunidade para dar um passo natural na evolução do país.

Porque Portugal já percebeu como atrair talento. o próximo passo – talvez o mais decisivo –, é saber fixá-lo.

E fixar talento não é apenas uma questão económica. é uma questão de confiança. De coerência. De visão.

No final desta história, não está apenas um profissional à espera da sua família. Está um país a decidir que tipo de destino quer ser.

Um destino de passagem, competitivo, mas transitório, ou um destino de escolha, onde as pessoas não vêm apenas trabalhar, mas viver, investir e permanecer.

Os países que lideram não são apenas os que captam talento. São os que compreendem que o verdadeiro diferencial está em criar condições para que esse talento fique.

E, muitas vezes, a diferença começa numa decisão simples: não tratar a família como um processo, mas como parte essencial da estratégia.

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