Em 2024, 58 ataques terroristas foram registados em 14 Estados-membros da UE, com 34 consumados, cinco fracassados e 19 impedidos pelas autoridades, segundo o mais recente relatório da Europol.O terrorismo não pertence ao passado. Não ficou congelado nas memórias de Paris ou Bruxelas. Transformou-se, fragmentou-se, digitalizou-se.A Europa tem um longo historial de combate ao terrorismo - da Operação Verviers, em 2015, às grandes redes jihadistas desmanteladas na última década. Mas o paradigma mudou. Hoje, o terrorismo já não depende apenas de estruturas hierárquicas ou campos de treino. Não precisa de fronteiras físicas, nem de comandos centrais visíveis. Surge em quartos de adolescentes radicalizados online. Circula em canais cifrados, organiza-se em fóruns fechados.É um ecossistema digital, onde a radicalização é acelerada por algoritmos, reforçada por bolhas ideológicas. Um niilismo digital onde a violência não serve um projeto político, é o próprio projeto. Jovens que transitam entre comunidades online marcadas por misoginia extrema, antissemitismo, culto da violência e antiocidentalismo.Se compararmos com os atentados coordenados de 2015 ou com o 11 de Setembro, a diferença é estrutural. Antes, estruturas organizadas, financiamento externo, logística complexa. Hoje, temos atores solitários radicalizados online, uso indevido de drones para reconhecimento ou ataque, blueprints de armas impressas em 3D partilhadas na dark web, financiamento através de criptomoedas e plataformas digitais, convergência entre terrorismo e crime organizado. A ameaça tornou-se descentralizada, difusa e mais difícil de antecipar.A nova estratégia de contraterrorismo apresentada na última semana pela Comissão Europeia faz o que faltava: liga terrorismo a crime organizado e financiamento ilícito. Propõe fechar lacunas nas criptomoedas e nos sistemas de pagamento digital. Reforça a cooperação com países terceiros. Investe na prevenção precoce da radicalização juvenil e no combate ao extremismo online.Parte do debate europeu hesitou sempre entre receios de securitarismo e respostas fragmentadas. Essa hesitação criou zonas cinzentas exploradas por redes extremistas que operam em espaços digitais sem fronteiras. Não é aceitável que terroristas utilizem tecnologia de ponta, enquanto as nossas autoridades, muitas vezes, operam com estruturas fragmentadas e processos lentos. Não é aceitável que a cooperação transfronteiriça dependa da boa vontade do momento. E não é aceitável que magistrados e polícias enfrentem redes transnacionais com instrumentos pensados para ameaças do século passado.O CDS, no Parlamento Europeu, tem um historial consistente na defesa de uma política europeia de segurança mais integrada e eficaz. Estivemos envolvidos na negociação de instrumentos estruturantes - desde a decisão europeia de investigação, da prova eletrónica à interoperabilidade dos sistemas de informação - que reforçam a cooperação judicial e policial europeia - porque sabemos que o terrorismo e o crime organizado exploram precisamente as falhas de coordenação entre jurisdições. Continuaremos a trabalhar para que as autoridades judiciais e policiais tenham as ferramentas adequadas - jurídicas, tecnológicas e operacionais - para investigar, prevenir e agir antes que a ameaça se concretize.