O Mundial do Novo Mundo: geopolítica nos 250 anos da América

Publicado a

Vários aspetos chamam a atenção nesta edição do Mundial de Futebol. Desde logo, a inevitável coincidência de a prova se disputar num país onde, todos os anos, se joga uma final mundial de futebol — ainda que noutros moldes. Os Estados Unidos celebram o futebol americano mas, como em tudo o resto, abraçaram o soccer. Entraram também na tendência da organização tripartida, antecipando o modelo da próxima edição da FIFA, que estará a cargo da tríade Espanha, Marrocos e Portugal.

Contrariando velhas acusações de falta de desportivismo ou isolacionismo, os Americanos abdicaram de uma organização solitária para coorganizarem o torneio com o Canadá e o México. No entanto, este aparente gesto de multilateralismo ganha contornos irónicos quando confrontado com a realidade. Não fora isso e poderíamos cair na tentação de perguntar por que razão a seleção do Irão (de acordo com a imprensa internacional), enfrentou severas restrições logísticas e burocráticas para jogar em solo americano, sendo obrigada a voar de imediato para os países coorganizadores após cada partida. Não se trata de uma crítica cega, mas sim de uma constatação sobre o uso das fronteiras como extensão da diplomacia.

Esta dualidade ganha um simbolismo histórico inegável neste exato momento. A fase a eliminar deste Mundial arranca em pleno 4 de Julho, coincidindo com o histórico Semiquincentenário dos Estados Unidos — a celebração dos 250 anos da sua Declaração de Independência. No epicentro das festividades de uma nação fundada sob os ideais iluministas de liberdade e união, o futebol expõe as fraturas de um mundo fragmentado. Enquanto a bola gira e os céus americanos se iluminam com o fogo-de-artifício da "America250", as guerras continuam lá fora, opondo inimigos históricos ou dividindo nações irmãs.

O entretenimento tenta abafar as questões incómodas: questionou-se a ausência de escoltas ou a pressão diplomática sobre seleções cujos Estados estão em rota de colisão direta com o país anfitrião? Porque falharam os blocos europeus ou os países da América do Sul em marcar uma posição firme sobre as alianças e tensões que moldam este torneio?

A resposta conveniente surge num ápice: o desporto não deve misturar-se com a política. É uma premissa confortável com a qual a maioria concorda, mas há sempre um "mas". Estamos na chamada silly season, o que parece anestesiar a opinião pública, mas isso não justifica que se passe uma borracha sobre a geopolítica que nos rodeia.

Até a paixão clubística que aplicamos à nossa seleção  — discutindo as opções táticas de deixar no banco Campeões Europeus e capitães da Premier League — serve, por vezes, como uma cortina de fumo perfeita. O futebol distrai-nos. No limite, o aparente desinteresse de uma população pela exibição da sua equipa pode refletir um desinteresse mais profundo e preocupante pelo rumo do próprio país, fruto das suas (o)posições.

As grandes surpresas desportivas deste torneio — como a histórica prestação de Cabo Verde, a eliminação precoce da Alemanha ou a afirmação de Marrocos ao afastar os Países Baixos nos penáltis — convivem lado a lado com as trapalhadas políticas continentais. Por agora, deixa-se a geopolítica para outras núpcias. Afinal, um bom Mundial serve sempre para esquecer as amarguras das nossas fracas prestações noutros campos. Esperemos que o verão traga o descanso revitalizante necessário para que, na rentrée, todos regressemos com uma melhor prestação.

Se assim for, teremos, coletivamente, uma vida melhor. Afinal é esse o nosso anseio. Até lá que ganhem os melhores, e que os melhores sejamos nós!

Diário de Notícias
www.dn.pt