O medo da IA é só mais um capítulo de quem vive do sacerdócio do pânico

Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

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Há qualquer coisa de tragicómico nos três mil "especialistas" e gurus que assinaram mais um manifesto apocalíptico exigindo guardrails e instituições que, na prática, abrem caminho a uma hiper-regulação da IA, tal como o DN noticiou na passada segunda-feira. Sob a bandeira do altruísmo humano (como sempre), a iniciativa We Must Act Now reedita o mais antigo e gasto truque da história política: usar o medo para concentrar o poder, criar burocracias de tutela, travar a inovação e o progresso científico que, só para dar um exemplo, em menos de 60 anos foi capaz de inventar a primeira máquina voadora e pôr o Homem na Lua.

A ilusão de que a tecnologia pode ser "desinventada" ou contida por decretos morais não é nova – e vem sempre do mesmo tipo de mentalidades. Terá tido o seu momento mais alto em 1946, quando Harry Truman, provavelmente o “político mais provinciano” (como lhe chamou o historiador John Lewis Gaddis) que alguma vez residiu na Casa Branca, julgou ser possível monopolizar o átomo através do Plano Baruch e da burocracia estatal. Pior! Não apenas os soviéticos detonaram a sua bomba três anos depois – resultado de planos furtados aos americanos –, como obviamente nem quiseram ouvir falar em qualquer hipótese de entregar o controlo das suas armas às Nações Unidas, como Truman dizia estar disposto a fazer.

Quem salvou o mundo da aniquilação nuclear não foram as comissões éticas da ONU ou quaisquer outros sonhos burocráticos, mas a fria e pragmática perspetiva de Eisenhower e a Teoria dos Jogos, que viria a dar na bem designada (se bem que um pouco arrepiante) doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD, na sigla inglesa).

A Humanidade é o que é. Perdão. As pessoas são o que são. A paz depende do equilíbrio de forças e da capacidade simétrica, não de proibições unilaterais e de planos engendrados por comités. Os indivíduos agem de acordo com as suas capacidades e dados os incentivos que veem contextualmente, em prossecução daquilo que entendem ser o melhor resultado possível para si.

Por isso, propor hoje uma intervenção regulatória ocidental profunda na IA é prescrever o suicídio estratégico em favor de regimes autoritários que não assinam petições.

Mas o vício da moralização reside na manutenção do statu quo. Já vimos isso aqui há algum tempo… Cerca de 70 d.C., quando um engenheiro apresentou ao imperador Vespasiano um dispositivo mecânico para transportar colunas pesadas a custo irrisório, o monarca até recompensou o inventor, mas proibiu a máquina: "Deixa-me alimentar a plebe", disse-lhe.

A preocupação não era o progresso científico ou económico, mas o controlo social. A máquina a vapor de Heron de Alexandria foi relegada a brinquedo de salão, onde ficou por quase dois mil anos: numa sociedade assente na dependência e na força humana (escrava ou semi-escrava) e animal como principal meio de produção, a produtividade autónoma é uma ameaça.

O histrionismo atual dos especialistas replica este padrão na perfeição. Mas podemos ir buscar mais exemplos: no século XIX, ilustres médicos publicavam tratados afirmando que velocidades ferroviárias superiores a 30km/h destruíam a retina humana por asfixia. Pouco antes, artesãos atiravam os seus sabots contra os teares mecânicos, literalmente sabotando-os para proteger monopólios corporativos.

O diagnóstico é sempre igual: elites intelectuais ou pessoas movidas pelo medo a mascarar a sua incapacidade de se adaptarem à realidade em mudança sob o disfarce da compaixão.

A reação contra a IA une o paternalismo de esquerda ("proteger a plebe do desemprego") e o populismo de direita ("travar a mudança"). É a aplicação perfeita do modelo económico dos Bootleggers and Baptists (Contrabandistas e Batistas): académicos ingénuos ("Batistas") fornecem o alarmismo moral necessário para que o Estado imponha licenças e burocracia, enquanto as gigantes da Big Tech ("Contrabandistas") aplaudem em surdina, acreditando que a regulação sufocante esmagará as startups e banirá o open-source.

Isto até que, claro, o escorpião do Estado lhes dê o golpe fatal, retirando-lhes a capacidade de decidir autonomamente o próximo passo – como, por exemplo, obrigá-las a desligar um modelo de IA de fronteira de um momento para o outro, enquanto a concorrência externa continua a funcionar.

A Inteligência Artificial não é uma entidade mística; é matemática, código e computação descentralizada. Tentar contê-la através da burocracia imperial – quando empresas em países adversários estão a fazer exatamente o oposto – é replicar a cegueira de Vespasiano. Os signatários destes manifestos não são sequer Oppenheimers em crise de consciência. São apenas os novos Vespasianos de iPhone a sinalizar a sua virtude, exigindo um monopólio impossível para dizer que tentaram salvar-nos de nós próprios.

Obrigado, mas não precisamos. Até porque a História demonstra que, sempre que este tipo de gente mete o bedelho, quem na realidade cria – e vive do seu talento – fica substancialmente pior.

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