O Médio Oriente após a guerra com o Irão

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

No momento em que escrevo estas linhas, renasce a esperança em torno das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irão, após um cessar‑fogo entre Israel e o Líbano. A trégua, ainda frágil, abriu uma janela que muitos julgavam definitivamente encerrada. Mas, mesmo que as conversações avancem, uma conclusão impõe-se com crescente nitidez: muito provavelmente nada voltará a ser como antes no Médio Oriente.

A primeira consequência visível deste novo equilíbrio é a posição do Irão. Pressionado por meses de confronto direto e indireto, e consciente do desgaste económico interno, Teerão parece disposto a colocar em stand-by, por um período ainda indeterminado, o seu programa nuclear. Não se trata de uma renúncia estratégica, mas de uma suspensão tática, um gesto calibrado para aliviar tensões e ganhar margem negocial.

A segunda consequência é mais profunda e, para Washington, mais incómoda. A hegemonia militar americana ficou posta em causa. Os aliados árabes do Golfo perceberam que os Estados Unidos não só não foram capazes de os proteger do Irão, como acabaram por os arrastar para um conflito que não desejavam. O episódio do bloqueio do estreito, decretado por Washington em resposta ao bloqueio iraniano, tornou-se paradigmático: ao tentar punir Teerão, os EUA acabaram por prejudicar tanto ou mais os seus próprios parceiros regionais, dependentes das rotas marítimas para a sua sobrevivência económica.

"A hegemonia militar americana ficou posta em causa. Os aliados árabes do Golfo perceberam que os Estados Unidos não só não foram capazes de os proteger do Irão, como acabaram por os arrastar para um conflito que não desejavam."
"A hegemonia militar americana ficou posta em causa. Os aliados árabes do Golfo perceberam que os Estados Unidos não só não foram capazes de os proteger do Irão, como acabaram por os arrastar para um conflito que não desejavam."Abedin Taherkenareh / EPA

Este conjunto de fatores aponta para um cenário que já se vinha desenhando, mas que agora ganha velocidade: nos próximos anos assistiremos, muito provavelmente, a uma aceleração rumo a um Médio Oriente cada vez mais multipolar. Israel, o Irão, a Arábia Saudita e a Turquia serão as potências regionais. A China, com a sua diplomacia paciente e os seus investimentos de longo prazo; a Rússia, com a sua presença militar consolidada na Síria; e até a União Europeia, empurrada pela necessidade de garantir segurança energética, terão um papel mais vincado na região. A era do domínio incontestado americano parece ter entrado na sua fase final, pelo menos aparentemente.

A resposta dependerá, em larga medida, da forma como decorrer o restante da presidência de Donald Trump e da Administração que lhe suceder. Muitos analistas têm sublinhado que, em 2027, quando Trump deixar a Casa Branca, os aliados de Washington estarão menos dependentes da proteção americana. A Europa, com a Alemanha à cabeça, estará a meio caminho do seu programa de rearmamento. O Médio Oriente, com a Arábia Saudita e as outras monarquias do Golfo na linha da frente, procurará novas fontes de armamento e de segurança, diversificando fornecedores e alianças.

"Vamos assistir a uma aceleração rumo a um Médio Oriente cada vez mais multipolar. Israel, Irão, Arábia Saudita e Turquia serão as potências regionais. A China, a Rússia e a Europa estarão mais presentes.”

Neste novo ecossistema, países como a Ucrânia, que desenvolveram tecnologias avançadas de drones e robótica militar ao longo dos últimos anos, surgem como atores inesperados, mas altamente competitivos. As oportunidades já se fazem sentir: vários países do Golfo iniciaram processos de aquisição de equipamento ucraniano, atraídos pela eficácia demonstrada no terreno e pelos custos relativamente mais baixos face aos sistemas ocidentais tradicionais.

O que emerge deste quadro é um Médio Oriente em mutação acelerada, onde velhas certezas se dissolvem e novas alianças se testam. A paz, se vier, não restaurará o passado. Pelo contrário: abrirá caminho a uma ordem regional mais fragmentada, mais pragmática e, inevitavelmente, mais imprevisível.

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