"O legado de Antero está todo no corte, na rutura com o mundo literário que encontrou e combateu (…), ninguém entre nós pôs tanta paixão no propósito de decifrar e, ao mesmo tempo, emendar o destino português.”
Nesta afirmação, Eduardo Lourenço dá a tónica respeitante ao lugar desempenhado pela autor de Odes Modernas na cultura portuguesa. Miguel de Unamuno qualificou, por isso, esse tempo como século de oiro da contemporaneidade portuguesa e Antero de Quental é a personalidade que se assume como de uma importância central. Na encruzilhada entre Camões e Fernando Pessoa, como este mesmo reconheceu, estamos perante um caso especial de luminosidade e de fulgor no mundo das ideias que se revela inultrapassável.
A editora Tinta da China acaba de publicar, em boa hora, o segundo dos três volumes que compõem a prosa completa de Antero de Quental, com edição de Ana Maria Almeida Martins (AMAM). O primeiro volume abrangeu os tempos de Coimbra, de 1857 a 1866; agora temos o período de 1868 a 1881, com os seus escritos mais políticos, o pensamento socialista e a participação fundamental nas Conferências do Casino Lisbonense - “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”.
Num bem fundamentado prefácio de AMAM podemos encontrar um roteiro esclarecedor com textos bem ilustrativos da ideia de que, mais do que o interesse pela sua morte, por muitos manifestado, “o verdadeiro Antero está na obra em prosa e verso que nos deixou”. Não por acaso, a última vontade de António Lobo Antunes, no dia do seu funeral, foi a de pedir a leitura do último soneto de Antero publicado no derradeiro volume dos Sonetos.
Há um elo referencial que chega até nós com uma força ética associada a um enorme talento de dimensão universal. Num ambiente político empobrecido, como o atual, ressaltam palavras como as seguintes: “A política egoísta, traiçoeira e espoliadora, que por aí fazem esses parvenus do parasitismo, esses triunfadores desprezíveis da intriga constitucional e burguesa, esses fetos adulterinos na agiotagem, tal política amaldiçoamo-la, com efeito odiamo-la, e consideramos esse ódio como um sentimento notabilíssimo, a ponto de nos julgarmos moralmente decaídos e rebaixados se não sentíssemos referver em nós essa indignação sagrada, essa cólera de justiça” (p. 198).
Encontramos uma orientação clara no sentido da organização da sociedade em termos tais que permitam ligar a democracia à justiça. “Semeiam-se as mesmas promessas, fazem-se os mesmos convites à revolta. Acautele-se o povo! Essa bandeira, que aí começam a desfraldar, encobriu sempre na sua sombra a ditadura e a formação de uma nova classe de privilegiados. A questão social é outra, e é doutro lado que se deem procurar os meios de a resolver”.
Texto após texto, numa coerência exemplar, deparamo-nos com a generosa atitude de considerar o pensamento e a ação fatores intimamente ligados, não em nome de uma perfeição terrena imaculada, mas como um horizonte de exigência, em nome do direito e da dignidade. E há aqui um texto exemplar, dedicado a Alexandre Herculano. Está assinado por Oliveira Martins, mas é da autoria final de Antero. Corresponde a uma solidariedade literária única e exemplar.
Os dois amigos fraternais, escrevem, como se fossem um só, sobre o mestre que admiram. Estamos perante uma atitude modelar, em que a cultura se exprime pela síntese e pela complementaridade. Que melhor exemplo?