Era a noite que antecipávamos há meses. Era um evento divertido. Relaxávamos por uma noite. Tentávamos estar no nosso melhor visual. Esperávamos ser sentados numa das melhores mesas, mais perto do banquete onde o presidente e a primeira-dama se sentavam.Participei no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca três vezes, representando a Associated Press, o meu antigo trabalho. As duas primeiras vezes foram durante a Presidência de Barack Obama, quando ele estava presente. Foi divertido.Durante o jantar, os presidentes tradicionalmente fazem um discurso que é completamente informal, embora por vezes toque em feridas.Obama celebrizou-se por "assar" (roast) Donald Trump enquanto este estava sentado na plateia com a sua esposa Melania. Obama brincou que, embora os críticos dissessem que Trump, que na altura concorria à Presidência, carecia de experiência em política externa, isso não era verdade: "Para ser justo, ele passou anos a reunir-se com líderes de todo o mundo: Miss Suécia, Miss Argentina, Miss Azerbaijão."As piadas criaram tensão com Trump, que protestou contra o jantar durante anos. O seu "desrespeito" pelos media foi outra razão pela qual ele optou por não comparecer, mesmo depois de se tornar presidente.Eu também estive lá durante o primeiro ano da sua presidência, em 2018, quando ele não compareceu. Ainda assim, a noite foi agitada. A comediante Michelle Wolf arrasou a então secretária de Imprensa de Trump, Sarah Sanders, agora governadora do Arkansas. "Eu até gosto muito da Sarah. Acho que ela é muito engenhosa. Mas ela queima factos e depois usa essas cinzas para criar um smokey eye perfeito", disse Wolf sob os risos da audiência.Esta e outras piadas foram consideradas demasiado "abaixo da cintura". A correspondente da Casa Branca do jornal The New York Times, Maggie Haberman, disse, na altura, que o que a comediante fez, sendo mulher, foi "vergonhoso". "Como se atreve ela a atacar a aparência e o caráter dela", escreveu.O New York Times não comparece oficialmente ao Jantar dos Correspondentes da Casa Branca desde 2007. Isso significa que não compra bilhetes para uma mesa. É bastante caro e, por vezes, uma quantia avultada para os orçamentos reduzidos dos meios de comunicação mais pequenos. Uma mesa para 10 pessoas costumava custar 3500 dólares. A comida não é grande coisa. O importante e comparecer.Mas o motivo do New York Times é diferente. Susan Wessling, editora de Padrões Éticos (Standards editor) do jornal, disse que a política é fruto do desejo da organização de manter a independência editorial, de modo a não ser "excessivamente amigável com pessoas cujas palavras e ações precisamos de reportar."O evento também atrai celebridades. Numa ocasião, ao lado da minha mesa estava Robert De Niro, que bufava com a atenção que recebia e se cansava dos pedidos de selfies rosto a rosto!O jantar deste ano tornou-se um grande evento porque Trump concordou em comparecer. Ele disse que iria este ano porque "A Associação de Correspondentes da Casa Branca pediu-me com educação..."Mas a sua decisão gerou controvérsia entre os jornalistas, questionando por que razão um presidente antimedia seria bem-vindo a um jantar que celebra a liberdade de expressão. Trump não tem muito respeito pela instituição mediática, conhecida como o Quarto Poder das democracias.Ele cortou o acesso à sala de reuniões da Casa Branca à agência de notícias independente mais respeitada do país, a Associated Press, por não usar o nome reconhecido internacionalmente de "Golfo do México" como o "Golfo da América". Trump referiu-se a uma repórter da Bloomberg News como "porquinha" por causa de uma pergunta sobre a Guerra do Irão que ela fez e de que ele não gostou. Cortou os fundos das organizações de media pública de confiança do país, PBS e NPR. Ele e a sua equipa processaram várias organizações de media, inclusive BBC, em milhões de dólares por reportarem "notícias distorcidas". O Pentágono limitou o acesso aos jornalistas. Até a Voice of America — usada como poder brando (soft power) pela Administração dos EUA, mas atuando como fonte de informação para países sob regimes opressivos, com acesso limitado a notícias — foi silenciada.Na noite de sábado, o evento marcou outra surpresa histórica quando um homem armado se infiltrou no Hotel Hilton, onde o evento ocorre sempre, e disparou tiros antes de os agentes de segurança o imobilizarem. O seu motivo ainda está sob investigação.O facto é que o local é escolhido por ter uma proteção de segurança de "escudo de ferro", especialmente desde que o ex-presidente Ronald Reagan foi baleado no mesmo local ao sair do Washington Hilton.É um grande desafio participar no jantar, esperando em vários controlos de segurança diferentes, em longas filas, com números especificamente designados e cartões de convite. O jantar começa depois de cerca de 2500 convidados chegarem ao salão de baile e ocuparem os seus lugares.Obviamente, por esse motivo, o atirador na noite de sábado não conseguiu chegar ao salão de baile; em vez disso, começou a disparar no átrio do hotel, que é restrito aos hóspedes, entre os quais se acredita que o atirador estaria hospedado.Trump quer que o jantar seja reorganizado dentro de um mês. Será outro evento a acompanhar, pois ele disse que reescreveria o seu discurso para ser "muito simpático" da próxima vez, observando que tinha preparado o "discurso mais inapropriado alguma vez feito", mas que não o pôde proferir.