O irreversível e a exaltação do mal

Luís Castro Mendes

Diplomata e escritor

Publicado a

Two roads diverged in a yellow wood

And sorry I could not travel both


 

(Robert Frost)

É normal que em idades mais avançadas nos atinja e alcance com mais força o peso do irreversível e a aura da nostalgia. Compreendemos que não poderemos nunca mais retomar os caminhos que deixámos por percorrer, os trabalhos que deixámos por fazer, os seres e as coisas que deixámos por conhecer.

Como nos avisa Robert Frost, no seu famoso poema “The road not taken”, não teremos oportunidade de voltar ao bosque onde, na encruzilhada, escolhemos o caminho menos percorrido, para irmos reconhecer o outro caminho, aquele que não tomámos. E mesmo que regressemos a todos os lugares do nosso percurso de vida, nem nós próprios nem esses lugares são já os mesmos. Como amargamente reconheceu o português António Mourão, o tempo não volta mesmo para trás.

Ninguém reconheceu Ulisses (só o cão!) quando ele finalmente regressou a Ítaca. Estarmos vivos significa que o que já fomos morreu. E como fugir a esse eterno e permanente luto por nós próprios, que se acrescenta ao luto por todos aqueles que perdemos?

Menos pessimista que o nosso António Mourão, o filósofo francês Vladimir Jankélévitch, no seu livro L’Irréversible et la Nostalgie aponta para o facto de o nosso corpo, as células e os tecidos do nosso corpo, terem uma capacidade de regeneração e de substituição que, se não nos dá a imortalidade, pelo menos nos permite prolongar a vida. E se olharmos a vida que nos resta como um novo terreno de escolhas e de apostas, em que continuamos a escolher entre caminhos – mesmo sabendo que não voltaremos àquela encruzilhada, pois outras se nos irão abrir –, guardaremos da nostalgia a sua irrepetível beleza, sem perdermos nela a alegria e o poder criador de estarmos vivos.

O irreversível vem assim abrir-se à esperança, que é a última a morrer-nos. E a força de “ter sido” vem compensar toda a nostalgia do que “poderia ter sido”.

Vivemos uma época de transição num ambiente de crescente irracionalidade. Não é inédita a violência e a irracionalidade destes nossos tempos, mas é nova a arrogante e assertiva afirmação (“para além do bem e do mal”), com que os poderosos se congratulam publicamente com a sua própria crueldade. Já não vivemos a banalização do mal, denunciada por Hannah Arendt: vivemos hoje a exaltação do mal!

Governos que torturam e governos que protegem e promovem desordeiros sempre existiram. Mas governos que filmam os seus próprios ministros, risonhos, a torturar, e governos que absolvem e indemnizam arruaceiros que invadiram o seu próprio Congresso, estes pertencem já a um novo modelo, o da exaltação do mal.

Eu escrevo estas considerações pessoais por imaginar que alguém possa tirar algum conforto destas ideias sobre a irreversibilidade do envelhecimento, neste país de população envelhecida e trabalhada pelo tempo e pela História. Mas eu sou dos que se recusam a olhar só para o copo meio vazio e por isso continuo, apesar de tudo, a acreditar nas jovens gerações. Sim, há uma dura luta a travar pelo humano contra o instrumental, pelo pensamento contra o embrutecimento, pela vida contra a mecanização e a instrumentalização da vida, pela civilização contra a exaltação do mal. Mas acredito que o humano triunfará sobre a desumanização, porque a força das coisas e da própria vida a tal irá conduzir.

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