O Irão, o Bloco e os bombardeamentos de mentiras

Fabian Figueiredo

Sociólogo e deputado do Bloco de Esquerda

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Sob o título “A total falta de vergonha com o fim de Khamenei”, o jornalista Ricardo Simões Ferreira assina, no Diário de Notícias, um texto que acaba por ilustrar, ironicamente, a sua própria premissa. Ao tentar associar o Bloco de Esquerda ao regime de Teerão com meras insinuações, o autor ignora os factos: o Bloco foi o primeiro partido a aprovar um voto de solidariedade com a oposição democrática iraniana, condenando a repressão teocrática sem ambiguidades. Esta postura é, até, reconhecida pela Iniciativa Liberal.

Onde estava o zelo democrático quando, na semana passada, o PSD e o Chega rejeitaram no Parlamento o voto de condenação apresentado pelo Bloco pela detenção e tortura da Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi? Para uma parte considerável da direita portuguesa, a defesa dos Direitos Humanos no Irão é apenas um acessório retórico para atacar a esquerda.

Insatisfeito com o exercício de amnésia, o autor viaja até Espanha para exumar o cadáver de uma mentira: o alegado financiamento iraniano ao Podemos. Omite, curiosamente, que a Justiça espanhola arquivou repetidamente tais queixas por se basearem em “guerra judicial suja” e testemunhos falsos. Reciclar esta fake news para sugerir fluxos financeiros para a esquerda portuguesa é, reconheça-se, uma inovação na já prolífica academia de mentiras nacional.

A incompatibilidade entre a esquerda e a teocracia é estrutural. Como os dirigentes do Bloco têm reiterado, a denúncia da ditadura iraniana não implica a vassalagem a ao aventureirismo militar de Trump ou ao genocídio em curso em Gaza. Enquanto o autor se entretém com estas fantasias, o mundo assiste ao horror real: o bombardeamento da escola Shajarah Tayyebeh, que ceifou a vida a mais de 160 pessoas, na sua maioria crianças. Perante esta tragédia, o Governo português permite o uso da Base das Lajes para operações unilaterais dos EUA, numa violação clara do Direito Internacional e da lei portuguesa.

Desejar o fim de uma tirania não obriga a aplaudir o bombardeamento de um povo. Farah Pahlavi, a ex-imperatriz do Irão, foi lesta a rejeitar a ingerência externa, defendendo que o destino do Irão pertence aos iranianos. Como sublinhou Pedro Sánchez, que dificilmente o autor acusará de ser um agente de Khamenei, “a questão não é saber se somos a favor dos aiatolás, ninguém é, a questão é saber se estamos do lado da legalidade internacional e, portanto, da paz”.

Ao contrário do que a prosa de Simões Ferreira romanceia, a esquerda não tem afinidade com os aiatolás. O nosso compromisso é com a liberdade, os Direitos Humanos e a paz, o que o autor poderia ter verificado através de uma rápida pesquisa num qualquer motor de busca.

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