A total falta de vergonha com o fim de Khamenei

O colapso moral daqueles que, no Ocidente, preferiram o silêncio sobre o regime assassino ou o defendem. Alguns, vamos sabendo, estavam na folha de pagamentos.
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A eliminação de Ali Khamenei encerra um dos capítulos mais negros da História Contemporânea. Independentemente de alguns títulos de jornal que possa ter lido por aí, certo é que o seu legado não é apenas o de um líder religioso, mas o de um arquiteto de um sistema de opressão que desafiou todas as normas da decência humana e da legalidade internacional.

Internamente, o seu período no poder foi definido por um "Apartheid de género" institucionalizado, cujos rostos mais trágicos (conhecidos) foram Mahsa Amini e Armita Geravand.

Mahsa (Jina) Amini, uma jovem curda de 22 anos, foi detida em 2022 pela "polícia da moralidade" por deixar escapar algumas madeixas de cabelo sob o véu. Testemunhas relataram o seu espancamento brutal dentro de uma carrinha policial; morreu três dias depois sob custódia, com o regime a tentar vender a tese absurda de uma "falha cardíaca súbita".

Na altura, o caso deu no movimento Mulher, Vida, Liberdade, no qual muitas celebridades (incluindo portuguesas) cortaram um bocadinho do cabelo em vídeo como sinal de protesto e solidariedade, em mais uma daquelas atitudes de anúncio de virtude que, curiosamente, não se repete hoje, quando o autor moral do homicídio foi finalmente punido.

Um ano depois, o horror repetiu-se com Armita Geravand, de 16 anos. Armita foi agredida no metro de Teerão por vigilantes do regime por não usar o hijab. O vídeo da sua retirada inconsciente da carruagem correu o mundo, enquanto o Estado pressionava a família a alegar um "desmaio por tensão baixa".

Ambos os casos revelam a natureza de uma estrutura que via no corpo feminino o seu principal campo de batalha e que não hesitava em assassinar crianças e jovens para manter o controlo teocrático.

Mas para lá da violência das ruas, Khamenei aperfeiçoou o terror psicológico através de um aparelho de vigilância omnipresente. A Guarda Revolucionária e as milícias Basij não se limitaram a reprimir, invadiram a esfera privada, monitorizando comunicações e impondo "apagões" digitais para isolar os iranianos do mundo. Nas masmorras de Evin, a tortura tornou-se um método administrativo para extrair confissões forçadas, exibidas em horário nobre para humilhar a dissidência. Esta máquina foi igualmente implacável com minorias como os Baha’is, cujos direitos à Educação e propriedade foram confiscados numa política sistemática de asfixia religiosa.

A toxicidade do regime não se ficou pelas fronteiras. Khamenei exportou o caos através do "Eixo da Resistência", transformando milícias como o Hezbollah, os Houthis e grupos iraquianos em extensões do seu braço armado. E financiou e armou o grupo terrorista Hamas. Ao fornecer mísseis de precisão e drones para desestabilizar vizinhos e bloquear rotas comerciais, o regime violou sistematicamente o princípio da soberania e as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, em atos claros de agressão indireta e terrorismo de Estado.

É uma fraude intelectual óbvia invocar o Direito Internacional para proteger quem o usa como escudo enquanto o estraçalha todos os dias. A falta de vergonha dos acólitos do regime ao apelarem à Carta das Nações Unidas para blindar uma teocracia que nunca deu um tostão pelos Direitos Humanos, nem concedeu uma linha às convenções que agora, por pura conveniência, pretendem ver aplicadas, seria risível se não fossem alguns destes indivíduos pessoas de poder no Ocidente – alguns preocupados que estão com os seus eleitorados islâmicos, outros influenciados por ideologias marxistas, outros ainda pelo… dinheiro.

Follow the money. Investigações em Espanha, como o relatório PISA da polícia espanhola, revelaram que o regime de Teerão injetou cerca de 9,3 milhões de euros no ecossistema de Pablo Iglesias e do Podemos – os “primos” espanhóis do ‘nosso’ Bloco de Esquerda – através da HispanTV. Por cá, não há sinais de fluxos semelhantes, note-se, pelo que se calhar as posições do BE são assumidas mesmo por gosto…

A queda de Khamenei não expõe só os crimes de um ditador – expõe a "solidariedade seletiva" de quem, no Ocidente, prefere o conforto do financiamento ou do alinhamento ideológico à defesa da dignidade humana. Mas a História, finalmente, está a passar a fatura.

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