Imaginemos que um transatlântico, depois de décadas a navegar com base nas cartas de papel, instala de uma assentada um sistema digital de navegação. Os primeiros dias são de sobressalto: coordenadas que falham, rotas que se sobrepõem, o medo dos marinheiros e do comandante, que sentem o leme a tremer ,e pânico dos passageiros com medo de serem engolidos pelo mar revolto. Alguém clamará que se volte ao papel. Alguém exigirá cabeças. E, no entanto, nenhum marinheiro experiente esperaria que a travessia fosse imune a turbulência.Foi isto, sem pôr ou tirar, o que sucedeu com a primeira classificação digital dos Exames Nacionais. Cerca de 166 mil alunos, notas afixadas com “suspenso”, correções sucessivas e um incómodo real e profundo, num momento absolutamente crucial da vida de milhares de jovens e das suas famílias. Seria irrealista e mesmo desonesto minimizá-lo. Mas seria igualmente irrealista e desonesto achar que a modernização de um sistema desta escala e abrangência pudesse fazer-se sem qualquer sobressalto.A nossa história administrativa está pejada de exemplos. Recordo-me do crash do Citius – a plataforma dos tribunais – conheceu falhas clamorosas em 2014 durante 44 dias que paralisaram a atividade judicial durante meses e nalguns casos anos. Ninguém defende hoje o regresso ao passado: o papel.A migração para o digital na Justiça, na Saúde ou na Segurança Social atravessou, sem exceção, períodos de turbulência antes de se tornar a espinha dorsal do serviço público. Uma inovação deste jaez, que afeta muitos milhares de utilizadores e cujo único teste verdadeiro é a sua utilização real – pois, não há teste-piloto que, num caso de utilização massificada, permita mimetizar o cenário real –, cobra geralmente o seu preço a implementadores e utilizadores, ou seja, Ministério da Educação, professores e alunos, respetivamente.Há, apesar de tudo, um dado positivo que não deve ser esquecido. O próprio sistema digital permitiu detetar e corrigir um erro na avaliação de um item do exame de Física e Química A que afetou 12.613 alunos: a esmagadora maioria – 11.496 – viu a nota subir. Num modelo em papel, disperso por centenas de classificadores, um erro desta natureza dificilmente seria identificado com esta abrangência. A transparência, por seu lado – pois, cada aluno pode agora consultar a cotação de cada resposta –, é também um ganho que a poeira destes dias não deve soterrar.Dito isto, o compromisso do Governo é inequívoco. O Ministério da Educação assegurou que nenhum estudante será prejudicado no acesso ao Ensino Superior. Os mecanismos estão previstos na Portaria n.º 219/2026: quem pedir reapreciação poderá usar a nova classificação na 1.ª fase, mesmo depois de terminado o prazo; quem só reunir condições após a revisão poderá candidatar-se em prazo próprio; e foi anunciada uma época especial de exames. É este o teste que agora verdadeiramente importa: não já o da plataforma, mas o da palavra dada.Ao Governo exige-se, agora, que cumpra integralmente a promessa. A tolerância que, com o tempo, podemos vir a ter com os custos inevitáveis da inovação é exatamente proporcional à intransigência quanto ao resultado prometido: zero alunos penalizados. Nem um só.Aos alunos e aos pais: não se deixem instrumentalizar politicamente. A angústia legítima destes dias não pode ser transformada em arma de arremesso político-partidário. O que está em causa – o futuro de uma geração – é demasiado sério para ser reduzido a munição de conjuntura e interesse político-partidário.Portugal precisa desta juventude. Precisa que ela entre no Ensino Superior sem cicatrizes deste percurso, com a confiança de que o país, apesar de todos os incidentes, não a deixou para trás. A inovação tem um preço. Mas esse preço nunca pode refletir-se no futuro de quem estuda.