O futuro de Coimbra não se constrói evitando a mudança

Ana Abrunhosa

Presidente da Câmara Municipal de Coimbra

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Coimbra habituou-se, durante demasiado tempo, a viver da ideia do seu enorme potencial. Mas hoje já não basta reconhecer qualidades: é necessário transformar essas qualidades em capacidade real de atrair pessoas, talento, investimento, inovação e vida urbana.

Poucas cidades portuguesas reúnem condições tão fortes para se afirmarem como uma grande cidade média europeia do conhecimento. Coimbra tem uma universidade de referência internacional, centros de investigação de excelência, património único, cultura, qualidade ambiental, escala humana e uma posição estratégica rara no território nacional. O problema nunca foi falta de potencial. O problema foi, demasiadas vezes, a incapacidade de transformar esse potencial em dinamismo urbano e económico.

Durante anos, Coimbra perdeu população jovem, perdeu capacidade de atração e tornou-se excessivamente lenta na concretização de novos projetos, públicos e privados. E essa realidade também resulta de um modelo urbano e regulamentar que, apesar do valor que teve no seu contexto original, se tornou progressivamente mais rígido e menos adaptado aos desafios contemporâneos da cidade.

Hoje, a competitividade das cidades mede-se cada vez mais pela qualidade urbana que conseguem oferecer. Mede-se pela capacidade de atrair talento, fixar população qualificada, criar habitação acessível, garantir mobilidade eficiente e proporcionar uma experiência urbana mais próxima, sustentável e humana. E as cidades que conseguem fazê-lo são aquelas que combinam visão estratégica com capacidade de execução.

É neste contexto que surge a suspensão parcial do PDM. Não como um exercício de desregulação, mas como um instrumento excecional para desbloquear soluções urgentes e adaptar a cidade a uma nova realidade urbana.

O desafio contemporâneo não é expandir indefinidamente a cidade. É construir uma cidade mais próxima, mais eficiente e menos dependente do automóvel. Durante demasiado tempo, Coimbra cresceu de forma dispersa, fragmentada e afastada das suas principais infraestruturas de mobilidade. Hoje, faz todo o sentido concentrar o crescimento urbano junto dos corredores estruturantes do Sistema de Mobilidade do Mondego, aproximando habitação, serviços, comércio, espaço público e transportes coletivos.

As cidades europeias mais competitivas são precisamente aquelas que conseguem combinar densidade equilibrada, mobilidade sustentável, mistura de usos e espaço público qualificado. Coimbra tem condições únicas para afirmar um novo modelo urbano, mais sustentável, mais eficiente e mais competitivo à escala europeia.

Existe também uma oportunidade histórica de reconciliação da cidade com o rio Mondego. Durante décadas, Coimbra viveu de costas voltadas para o rio. Hoje, o Mondego deve ser entendido não como limite, mas como estrutura central da cidade do futuro. Poucas cidades portuguesas têm uma oportunidade tão forte de articular estrutura ecológica, espaço público, mobilidade suave, habitação e uma nova centralidade urbana ao longo das suas margens.

O debate não deve ser entre crescimento e preservação. Deve ser entre crescimento qualificado ou estagnação urbana. Preservar Coimbra não pode significar cristalizá-la no tempo ou impedir a sua capacidade de evolução.

Ninguém defende crescimento descontrolado. O que defendemos é uma cidade que cresce com planeamento, exigência urbanística, sustentabilidade ambiental e respeito pela sua identidade histórica. Mas também com capacidade de decisão, previsibilidade e ambição.

O futuro de Coimbra não se protege evitando a mudança. Constrói-se com a capacidade de a liderar.

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