Há uma cena que se repete todos os dias, em qualquer rede social. Alguém filma a própria casa em desordem, o casamento que ruiu, a conta bancária no vermelho ou o diagnóstico recebido na véspera, e fá-lo com um sorriso e uma legenda triunfante: “Decidi ser autêntico.” O gesto é aplaudido. Vivemos uma época em que a exposição se tornou virtude e a reserva, suspeita. Quem guarda alguma coisa para si tem, presume-se, algo a esconder.A autenticidade era, em tempos, uma exigência moral difícil: corresponder por dentro àquilo que se mostra por fora. Tornou-se o contrário. É hoje uma técnica de marketing, um argumento de venda, um filtro como outro qualquer. As marcas são “autênticas”, os políticos são “autênticos”, os influenciadores choram em direto para provar que são “autênticos”. Byung-Chul Han descreveu bem este mundo em que tudo se oferece à exposição e nada se subtrai ao olhar: uma sociedade da transparência onde o mistério desaparece e resta apenas a evidência, lisa e sem profundidade. Aquilo que parecia libertação revelou-se uma nova forma de coação.O preço desta mudança é o pudor. E o pudor não é, ao contrário do que sugere a palavra, uma timidez antiquada. É a consciência de que existe um outro à minha frente e de que nem tudo o que me apetece dizer ou mostrar deve ser dito ou mostrado. O pudor é uma forma de cuidado. Lipovetsky escreveu, há décadas, que o individualismo contemporâneo, ao dissolver os antigos códigos, prometia leveza e entregou narcisismo. O resultado está à vista: quanto mais autêntico cada um se proclama, menos parece reparar que há alguém do outro lado.Porque o problema da autenticidade erigida em valor supremo é simples. Se ser fiel a mim mesmo é o bem maior, então tudo o que sinto é legítimo e tudo o que digo é defensável, bastando a fórmula mágica: “é só a minha opinião”, “sou assim, não me censuro”. A crueldade ganha foros de coragem. A grosseria passa por franqueza. O exibicionismo confunde-se com transparência. Já não há fronteira a respeitar, porque respeitar uma fronteira seria fingir e fingir é o único pecado que restou.A civilização, no entanto, nunca foi a ausência de máscara. Foi sempre o acordo tácito de que certas coisas se contêm, certos impulsos se moderam, certas misérias se guardam, não por hipocrisia, mas por deferência para com quem nos rodeia. O pudor mínimo é isso: a distância delicada que torna possível a vida em comum. Talvez a tarefa do nosso tempo não seja ser mais autêntico. Seja recuperar a sabedoria, hoje quase escandalosa, de que nem tudo o que é verdadeiro precisa de ser exibido.