Luís Montenegro acaba de ser reeleito líder do PSD sem oposição, tal como já se sabia, embora com menos entusiasmo do que há dois anos (em percentagem de votos e mobilização de militantes), numa altura em que também a oposição parlamentar parece, para já, longe de representar uma ameaça existencial ao seu Governo, apesar das sondagens mais recentes apontarem uma queda social-democrata e darem liderança ao PS nas intenções de voto.O maior desafio político atual de Montenegro, no entanto, parece não estar à sua esquerda, nem à sua direita – até porque os socialistas voltam a ver-se confrontados com casos de Justiça que os obrigam a lidar com fantasmas do passado, enquanto o Chega se meteu em nós complicados de desatar, até para o populismo mais contorcionista, com as posições recentes sobre o pacote laboral, como a baixa da idade da reforma. O principal desafio para Montenegro está mesmo por trás do ombro, a rezingar-lhe ao ouvido, na figura de um ex-líder que parece apostado em ser uma voz persistente a ecoar na consciência governativa do atual primeiro-ministro.Montenegro chamou-lhe um “ruído menor”, mas a verdade é que cada intervenção de Pedro Passos Coelho desde que decidiu regressar ao debate público – e têm-se sucedido a um ritmo cada vez mais intenso – causa mais abalo sobre a governação do que as iniciativas da oposição. Passos, já se sabe, considera-se o arauto de uma visão mais reformista, liberal, marcada pela ideia de mudanças estruturais profundas no Estado. E sempre que fala, não o faz apenas como um antigo primeiro-ministro com experiência para partilhar, mas sim com a aura de professor austero, que não perde a oportunidade para dar um puxão de orelhas público ao aluno a quem exige mais esforço.Passos Coelho não se cansa de sugerir que Montenegro devia fazer melhor. E isso gera bem mais incómodo do que qualquer crítica vinda da oposição. Não porque ameace diretamente a liderança do PSD, mas porque mantém sobre o primeiro-ministro uma espécie de fantasma do passado, presente e futuro. Um padrão de comparação permanente a cada reforma adiada ou a cada compromisso parlamentar, fazendo ecoar na consciência a pergunta inevitável: o que faria Passos Coelho?O atual primeiro-ministro parece preferir procurar inspiração noutra figura tutelar do PSD. Depois de vencer as diretas, prometeu “trabalhar, trabalhar, trabalhar”, evocando mais uma vez a marca de Cavaco Silva.Mas só haverá uma forma de Montenegro silenciar o fantasma de Passos, que é ter sucesso nas reformas a que se propõe. Não basta agitar aos ventos que este é o Governo “mais reformista dos últimos 30 anos”. E essa é precisamente a tarefa mais difícil, num Governo que não dispõe de maioria absoluta e depende inevitavelmente do apoio do Chega ou do PS para qualquer reforma estrutural.