Dizia-me António Alçada Baptista que no momento em que chegou a Paris, nos anos 60, se espantou com a facilidade com que grandes personalidades intelectuais do momento o recebiam. Houve, é certo, quem o desiludisse, mas ficaram referências seguras, como Edgar Morin, Pierre Emmanuel e Jean-Marie Domenach.Edgar Morin foi um dos raros intelectuais em que a vida e a obra se confundiam numa preocupação constante de pôr tudo em questão e, por isso, não deixou que se construísse o seu próprio mito. Organização e Complexidade foram duas palavras-chave na sua obra. A vida organiza-se, desorganiza-se e torna a reorganizar-se por uma série de trocas de referências e informações a um nível cada vez mais elaborado de complexidade. E o pensador demonstrou que esta ‘ordem complexa’ detetada na vida das células existe nas sociedades e que a organização em sociedade, longe de ser um privilégio do homem, é uma forma de organização de todos os seres vivos.Esta é uma reflexão essencial porque o Homo Sapiens deixou de ser um semideus sóbrio e distante, pois está imerso na Natureza, fazendo parte da totalidade. Deixou de ser possível limitar a Humanidade a uma evolução biológica, espiritual ou sociocultural, porque há sempre um conjunto de causas complexas. O movimento de auto-organização tem como epicentro o cérebro humano, que integra e organiza. Tudo é real e imaginário, em simultâneo.Um dia uma mãe-de-santo disse na Bahia: “Quando há mais que dez pessoas, a gente vira Natureza”. Afinal aí estava a explicação. Por isso António Alçada acreditava na proximidade das pessoas e na importância das pequenas comunidades. Só poderemos compreender a realidade que nos cerca se nos apercebermos do conjunto e do contexto, do erro e da ilusão, do inesperado e do incerto, da unidade e da diversidade, da identidade planetária, de uma ética do género humano e da importância da cidadania inclusiva. O microcosmos leva-nos ao entendimento da dimensão universal da dignidade humana.Relendo e ouvindo Edgar Morin compreendemos que o humanismo significa o respeito e a consideração que qualquer ser humano merece. Vivemos na nossa aventura coletiva diversas crises: ambiental, económica, democrática e da mundialização. Contudo, as democracias têm perdido força.Um país como a China dispõe de meios tecnológicos que controlam os indivíduos e a sua vida, mercê das tecnologias de informação e do reconhecimento facial, numa lógica perigosa de domínio. Os ataques russos na Ucrânia traduzem-se em verdadeiros crimes de guerra. Importa devermos estar de sobreaviso com os países que cultivam um despotismo de fachada democrática.A mundialização levou ao surgimento do racismo, da intolerância, do medo das diferenças. As guerras em curso comportam grandes perigos além das destruições, das mortes, dos massacres em todos os campos e do risco da destruição de recursos alimentares e agrícolas e do património cultural.Um novo conflito mundial está em curso. Assim, Edgar Morin afirmou nos últimos anos de vida, que temos de saber escolher entre a barbárie e a solidariedade, compreendendo o diálogo entre “polemos”, o debate de ideias, “eros”, a importância do amor, e “tanatos”, a consciência da morte. Temendo o risco da regressão, acreditava no pensamento e na esperança que as ideias criadoras representam. E contar com o inesperado é também acreditar na prevalência da dignidade humana como fator de respeito e de paz.