O escândalo dos milhões

Eduardo Barroso

Cirurgião

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Gosto muito de futebol e adoro o meu Sporting, clube de que sou sócio há 77 anos, com o número 190. Se o declaro no início desta crónica é porque quero que fique claro que nada me move contra o futebol, e muito menos contra aqueles que o protagonizam. E confesso que ver os jogos do meu Sporting semanalmente faz parte dos pequenos prazeres da minha vida.

Talvez este prazer se tenha progressiva e paulatinamente atenuado, fruto de este desporto se ter progressivamente transformado numa indústria mercantilista, com interesses económicos absurdamente imorais. O que actualmente se paga a alguns profissionais envolvidos é um verdadeiro escândalo, tal como também o são os valores envolvidos na transferência (compra) dos jogadores e até de treinadores. São valores absurdos e imorais, que crescem exponencialmente a cada ano, sem que ninguém tenha coragem de os tentar travar.

É certo que o espectáculo do futebol gera muito dinheiro, gera milhões, e que os protagonistas nele envolvidos merecem ser bem pagos. Mas ser muito bem pago não implica os valores que hoje são indecentemente atingidos. Podem dizer-me que é o mercado a funcionar, que, havendo quem queira pagar, tudo é legítimo, mas não consigo concordar. Não espanta, portanto, que até politicamente haja quem se aproveite de ter petróleo para inflacionar os preços, auto promover-se e branquear regimes, tal como não espanta ver milionários, oligarcas russos, árabes ou de outras origens, a comprar as SAD dos mais reputados e prestigiados clubes mundiais.

Não culpo os jogadores ou outros profissionais envolvidos por se sentirem atraídos para ofertas irrecusáveis, a não quererem cumprir contratos já assinados, obrigando os seus patrões a serem forçados a abdicar deles. Tal como há décadas se acabou com a prepotência dos clubes de poderem reter os seus jogadores, violando a liberdade laboral (Lei Bosman), são agora necessárias novas regras éticas, impondo decência e moralidade.

Claro que não acredito que os actuais interesses envolvidos, representados por uma FIFA corrupta, que só pensa em dinheiro, possam fazer alguma coisa para alterar o que quer que seja. Têm de ser os governos, enquanto ainda temos a grande maioria dos clubes sem estarem na posse dos ricos e poderosos, a pôr travão à imoralidade reinante. O futebol é uma indústria espectáculo fantástica, que dá de comer a muita gente e pode, e deve, poder continuar a fazê-lo. Mas fechar os olhos à realidade existente, contribuindo cada vez mais para acabar com a equidade e a desequilibrar as competições, vai, a médio prazo, acabar com a “galinha dos ovos de ouro”.

O poder do futebol, a sua capacidade de mobilizar e apaixonar biliões de espectadores em todo o mundo resulta de este ser um desporto fácil de entender, com regras simples, o que o torna muito popular. Como tudo na vida, evoluiu de praticado por amor às camisolas passou a ser uma profissão aliciante. Mas não exageremos, não estiquemos mais a corda, ela vai seguramente partir.

Eu ainda continuo a gostar muito e a vibrar com o espectáculo do futebol e em particular com o meu querido Sporting. Mas até quando?

PS - Concordo com a Lei Bosman, de 1995, mas obrigar os clubes a terem nos seus planteis um número mínimo de jogadores com a nacionalidade dos países onde actuam, e sobretudo daqueles que formam, parece-me uma medida absolutamente decisiva e fundamental, para combater um mercantilismo inaceitável, e atenuar as desigualdades entre os grandes e os pequenos clubes de futebol. Sei que esta regra (ou parecida), conhecida por 6+5 foi rejeitada em 2010, com argumentos que me parecem hoje ultrapassáveis. Até porque chegámos ao que chegámos, e não queremos que a corda parta.

Escreve com a antiga ortografia

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