O elevador social não existe - é uma finta vossa

Paula Marques

Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa

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Fazer um percurso no Ensino Superior é muito mais do que tirar um curso. É alargar horizontes, confrontar ideias e supostamente aumentar as possibilidades de uma vida melhor. Há números que deviam envergonhar um país e este é um deles: apenas 3% dos jovens que ingressaram no Ensino Superior são dos estratos sociais mais pobres.

Durante décadas, sedimentou-se a ideia de que a Educação era o grande elevador social. A democratização do ensino seria garantia de equidade: uma criança nascida numa família pobre poderia, através da escola pública, conquistar um futuro diferente. Quando o acesso à universidade depende cada vez mais do rendimento familiar, não estamos perante uma questão de mérito, estamos sim, perante uma questão de classe. Essa promessa, no quadro neoliberal, não é uma realidade.

A desigualdade começa muito antes da candidatura ao Ensino Superior: na pobreza infantil, nos baixos salários, nas condições de habitação, no acesso à cultura, nos recursos das escolas, no ter computador ou simplesmente um espaço tranquilo para estudar. E prolonga-se na universidade, com propinas e rendas incomportáveis, transportes, alimentação e materiais escolares. Uma ação social insuficiente que deixa demasiados jovens pelo caminho.

O aumento do custo de vida tornou esta escolha ainda mais brutal. Para muitas famílias, enviar um filho para estudar noutra cidade é uma operação financeira impossível. Muitos jovens trabalham enquanto estudam; outros escolhem não o curso que desejam, mas aquele que conseguem pagar. Não é liberdade de escolha. É desigualdade social transformada em destino.

Há ainda uma contradição que não podemos ignorar: exigimos cada vez mais à escola, enquanto aceitamos um mercado de trabalho que rouba tempo às famílias e um modelo económico que aprofunda desigualdades.

Invocar o mérito sem falar das condições de partida é uma forma desonesta de esconder a desigualdade. Não basta garantir igualdade na entrada da universidade. É preciso garantir condições para lá chegar e para permanecer. A Educação não deve reproduzir a desigualdade. Num país mais justo é uma ferramenta para a combater.

Se a origem social determina quem consegue estudar, o elevador social não existe. Como dizia o Zé Mário Branco, “…é uma finta vossa”.

Uma democracia afirma-se com políticas públicas, investimento e redistribuição. Com uma escola pública valorizada, menos alunos por turma, professores em número suficiente. Com uma rede pública, universal e gratuita de creches e pré-escolar, porque a igualdade começa antes da escola.

E com um Ensino Superior verdadeiramente democratizado: caminhar para o fim das propinas e taxas, reforçar a ação social e ampliar a rede pública de residências universitárias, para que estudar não seja um privilégio condicionado pela conta bancária dos pais.

Esta é uma escolha política. Ou reforçamos os serviços públicos e os direitos sociais, ou continuamos a financiar soluções privadas, enquanto faltam recursos onde o direito universal deve ser garantido (25% dos alunos do Ensino Secundário já estão no privado).

O verdadeiro teste à nossa democracia é simples: saber se o futuro de uma criança depende mais do seu talento e da sua vontade do que do dinheiro da família onde nasceu.

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