Os ignorantes são ignorantes da sua ignorância. Citação atribuída a Peter Allan Baskerville, historiador, eleito Fellow da Royal Society of Canada em 2008 e professor emérito da Universidade de Victoria, no Canadá No dia 6 de janeiro de 1995, McArthur Wheeler e Clifton Earl Johnson assaltaram dois bancos em Pittsburgh, nos Estados Unidos da América. A dupla cobriu o rosto com sumo de limão e, num curto intervalo de tempo, assaltou uma agência do Mellon Bank e o Fidelity Savings Bank. Convencidos de que o sumo de limão poderia funcionar como uma espécie de tinta invisível, acreditaram que ficariam invisíveis às câmaras de segurança. Como seria de esperar, foram rapidamente identificados e detidos, para grande surpresa dos próprios.Quatro anos mais tarde, em 1999, inspirando-se neste episódio, o professor de psicologia David Dunning, nascido em 1960 e na altura na Universidade Cornell, em Nova Iorque, juntamente com o estudante de doutoramento Justin Kruger, descreveram o denominado efeito Dunning-Kruger. Este efeito explica um viés cognitivo segundo o qual algumas pessoas tendem a sobrevalorizar as suas competências numa determinada área. Trata-se de um erro sistemático de raciocínio, nomeadamente de avaliação e análise, em que a falta de conhecimento impede o indivíduo de reconhecer as próprias limitações, conduzindo a intervenções inadequadas ou juízos errados. Para Dunning e Kruger, estamos perante uma forma de incompetência inconsciente: a pessoa não sabe que não sabe, e a ilusão de conhecimento protege-a da perceção da sua própria ignorância.Este fenómeno sempre existiu. Recorde-se o antigo provérbio popular “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”, usado para criticar quem opina ou intervém em matérias que desconhece ou para as quais não tem competência. Dunning e Kruger deram, contudo, enquadramento cognitivo e científico a esta realidade e atribuíram-lhe uma designação mais formal em 1999.Nos últimos anos, o efeito Dunning-Kruger tem sido amplamente referido, sobretudo no contexto da desinformação, durante e após a pandemia de covid-19, período em que se tornou particularmente visível a atuação do movimento antivacinas. Assistiu-se ao surgimento espontâneo de autoproclamados especialistas em múltiplas áreas, desde vacinas e segurança vacinal até procedimentos regulamentares ou farmacovigilância.É fácil assumir uma posição de aparente autoridade, muitas vezes marcada por presunção e desconhecimento das próprias limitações, quando se escolhe o que dá jeito e não se reconhece o valor de peritos devidamente qualificados, por exemplo, da União Europeia.Proteja-se destes especialistas de geração espontânea e não vá em falsas cantigas. Perante questões sérias, saiba a quem recorrer e nunca esqueça a importância de separar o trigo do joio.