Começa a tornar-se frequente a lenga-lenga liberal de que Portugal não devia estar dependente de fundos europeus.Isto é dito como se a utilização de fundos europeus fosse uma espécie de comportamento aditivo de que precisamos de nos libertar.Como se décadas de políticas liberais em Portugal não tivessem cortado no investimento público financiado pelo Orçamento do Estado substituindo-o por fundos europeus.Como se Portugal tivesse hoje o mesmo nível de desenvolvimento da Alemanha e da França e pudesse, por isso, dispensar os fundos europeus.Como se a Alemanha ou a França não quisessem, elas próprias, ter acesso a uma fatia ainda maior de fundos europeus do que aquela a que já hoje acedem.Como se Portugal andasse de mão estendida e não recebesse fundos da União Europeia por direito próprio, para ser compensado pelos impactos negativos que sofre na sua economia em consequência das políticas comuns, do mercado único, do euro.Este discurso liberal revela um completo desligamento da realidade nacional e das necessidades do país e aponta o caminho da desistência na luta de Portugal por um reforço dos montantes de fundos europeus a que tem acesso.Os “liberais” portugueses posicionam-se como se fossem alemães ou franceses a falar de um país estrangeiro, em sentido completamente contrário ao que se impõe para defender o interesse nacional.Nem Portugal é a Alemanha ou a França para poder dispensar o acesso a fundos europeus, nem estamos em condições de disputar esses fundos com países mais desenvolvidos como se estivéssemos todos no mesmo patamar, nem devemos fazer essa discussão como se estivéssemos a reivindicar algo a que não temos direito.A discussão do próximo quadro financeiro está a ser feita em condições muito difíceis para países como Portugal.Não só as grandes potências da UE querem deitar a mão a mais fundos do que aqueles de que já hoje beneficiam, como ainda por cima querem impor condições ainda mais restritivas para a sua utilização por parte dos restantes países.Objetivos como os da coesão económica, social e territorial são relegados para segundo ou terceiro plano face à preponderância das designadas políticas para a competitividade ou da segurança e defesa que escondem o favorecimento das multinacionais e da militarização em que a UE está empenhadíssima.Quando nos comparamos com os países mais desenvolvidos dentro da UE não há praticamente nenhuma área ou setor onde a distância relativa de Portugal não justifique o acesso a esses fundos para vencer as assimetrias económicas, sociais, científicas ou tecnológicas que marcam essa comparação.É, sobretudo, em função dessas assimetrias que Portugal deve reivindicar o aumento dos fundos europeus a que tem acesso, visando a lógica da convergência com esses países mais desenvolvidos.Seguir o raciocínio e as políticas que defendem os liberais seria um suicídio nacional para Portugal. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico