O discurso do rei

Aline Hall de Beuvink

Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

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Num tempo marcado pela erosão da confiança nas instituições e pela crescente volatilidade dos sistemas políticos democráticos, a recente visita de Carlos III aos Estados Unidos constituiu um exercício exemplar de diplomacia de alta densidade simbólica e eficácia estratégica. Mais do que um gesto protocolar, tratou-se de uma demonstração clara das virtualidades próprias de uma monarquia constitucional, enquanto forma de chefia de Estado capaz de transcender as limitações inerentes aos regimes republicanos contemporâneos.

O discurso proferido perante o Congresso norte-americano destacou-se não apenas pela sua elegância formal, mas pela subtileza do seu conteúdo político. Longe de uma retórica circunstancial ou partidária, o monarca convocou referências históricas fundacionais (da tradição jurídica comum à cooperação militar e estratégica) para reafirmar a centralidade da relação transatlântica. Fê-lo com uma notável contenção discursiva, evitando qualquer incursão na disputa política interna americana, ao mesmo tempo que sublinhava valores estruturantes como o primado do Direito, o compromisso com a liberdade e a responsabilidade partilhada no plano internacional.

É precisamente nesta capacidade de articulação entre simbolismo e substância que reside uma das mais relevantes vantagens da monarquia constitucional. Ao contrário de um presidente da república, frequentemente constrangido por ciclos eleitorais, agendas partidárias e pela necessidade de afirmação pessoal, o monarca beneficia de uma autoridade que não deriva da competição política, mas da continuidade histórica e da legitimidade institucional acumulada. Tal condição permite-lhe intervir num plano distinto: o da influência discreta, da mediação e da construção de consensos duradouros. Aquilo a que se chama “soft power”. E, convenhamos, só um monarca poderia fazer determinadas considerações mais humorísticas com a história: as mesmas, ditas por um presidente da república, não só não teriam o mesmo impacto, como não resultariam com a carga jocosa e irónica, como as que foram verbalizadas.

Importa ainda salientar o processo de elaboração do próprio discurso, resultado de uma interacção sofisticada entre governo, diplomacia e Casa Real, posteriormente densificado pela intervenção pessoal do soberano. Esta síntese entre prudência política e visão de longo prazo é dificilmente replicável em sistemas onde a chefia de Estado se confunde com a liderança governativa, comprimindo o espaço para a representação equilibrada do todo nacional.

A visita, no seu conjunto, evidenciou igualmente a utilidade de uma figura que, estando acima da contenda partidária, consegue actuar como elemento estabilizador em contextos de tensão. A recepção transversalmente positiva, num ambiente político profundamente polarizado, ilustra bem essa singular capacidade agregadora. Onde um líder eleito poderia suscitar resistências imediatas, o monarca suscitou respeito, escuta e, não menos importante, confiança.

Num horizonte político cada vez mais marcado pela fragmentação e pelo imediatismo, a monarquia constitucional reafirma-se, assim, como um modelo dotado de uma racionalidade própria: a de separar, de forma clara, a representação do Estado da disputa pelo poder. O rei não governa, mas orienta; não decide, mas influencia; não divide, mas congrega. E é precisamente nessa distinção que reside a sua força. Incluindo na imagem que faz passar para a esfera internacional.

A actuação de Carlos III nos Estados Unidos não foi apenas um episódio diplomático bem-sucedido: foi, acima de tudo, a demonstração de que, em determinadas circunstâncias, a superioridade institucional de um monarca constitucional não é meramente teórica, mas profundamente operativa."
 

 

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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