O dinheiro deixará de existir?

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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A pergunta é, em sim mesma, uma provocação. O dinheiro dificilmente deixará de existir, mas também dificilmente continuará a ter a forma pelo qual o reconhecemos. Aliás, a mudança já está em curso, discreta, mas rápida e silenciosamente consistente. O cartão bancário, as transferências instantâneas, os pagamentos por telemóvel e as carteiras digitais reduziram já enormemente o uso quotidiano de numerário. E a revolução em curso não foi resultado de uma pressão tecnológica ou capitalista, mas a resposta a uma necessidade nossa, uma mudança de hábitos. Milhões de pessoas deixaram praticamente de usar notas e moedas, fizeram-no por comodidade, segurança, rapidez e controlo de custos.

No entanto, o dinheiro, no seu sentido mais profundo, não é a nota que temos na carteira. É uma convenção de confiança, uma promessa aceite por todos, uma linguagem comum que permite trocar trabalho, bens, tempo, risco e futuro. A questão central não é a de sabermos se o dinheiro vai acabar, mas quem controlará a sua forma, a sua circulação e o seu acesso.

Não pense que estou a desvalorizar o dinheiro físico. Seria um colossal erro de avaliação concluir que o numerário se tornou irrelevante pois mantém incólume a sua função social, democrática e até simbólica. Recorda-nos que a relação económica não deve depender exclusivamente de plataformas, algoritmos ou grandes intermediários. E protege alguma privacidade legítima, garante autonomia em caso de falha tecnológica e permite a inclusão de quem não domina o digital.

É precisamente por tudo isto que o cooperativismo deve saber usar a sua voz própria. Uma Caixa Agrícola, ou qualquer instituição financeira de proximidade, não pode olhar para o fim do dinheiro físico apenas como uma modernização técnica, mas como uma transformação social. O dinheiro digital só significará progresso se continuar ao serviço das pessoas, das famílias, das empresas locais e dos territórios.

A lógica cooperativa é o principal garante de que as comunidades serão protegidas. Não nascemos para substituir as pessoas por tecnologia, mas para usar a tecnologia em favor das pessoas. O desafio nunca será apenas o de criar meios de pagamento mais rápidos, mas o de garantir que ninguém fica para trás. Proteger o pequeno comerciante, o agricultor, o reformado, o imigrante recém-chegado, a família que precisa de crédito, a empresa local que quer crescer e o jovem que já vive num mundo desmaterializado.

O dinheiro físico tem custos: impressão, transporte, segurança, armazenamento, risco de furto e gestão operacional. Porém, o digital também os tem, embora menos visíveis: infraestrutura, cibersegurança, literacia digital, proteção de dados, dependência de redes e vulnerabilidade a falhas sistémicas. A modernidade séria não troca um problema visível por outro invisível. Avalia um e o outro.

Somos um país de emigrantes, de pequenas empresas, de famílias, de territórios de baixa densidade e de forte relação comunitária. Não podemos importar soluções digitais como se fôssemos apenas consumidores de tecnologia. Temos de adaptá-las à nossa realidade. O dinheiro do futuro deve ser mais eficiente, mas também mais humano. O dinheiro não irá desaparecer, mas mudará de corpo. E, quando isso acontecer, a pergunta essencial será a mesma de sempre: estará ele ao serviço da pessoa, da comunidade e do bem comum, ou seremos nós a ficar ao serviço de sistemas financeiros cada vez mais distantes? Esse é o verdadeiro debate.o

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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