O Dia de Camões

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

Publicado a

Que melhor programa para o nosso Dia Nacional, consagrado a um grande poeta, que um percurso pela Feira do Livro, ao encontro da melhor poesia e da melhor literatura?

É certo que os livros de venda mais assegurada (os best-sellers, os infantojuvenis, os curandeiros das almas) cada vez ganham mais espaço e relevo, o que torna um pouco menos fácil (mas de forma alguma impossível) encontrar o que de bom se escreve e publica no nosso país. Há muita coisa a ver, a ler, a reler, e mesmo se o que mais nos interessou este ano já o comprámos em livraria, vale a pena correr os pavilhões das editoras e os pavilhões dos alfarrabistas, pois sempre estará à nossa espera um livro sonhado ou uma inesperada descoberta.

Dediquemos então um pensamento a Camões. António Gonçalves, impressor, foi o editor da 1.ªedição dos Lusíadas, devidamente aprovada a sua publicação pela Santa Inquisição, com critérios de suspeita abertura ao erotismo fervente de alguns episódios, o que não deixou de ser veementemente criticado poucos anos mais tarde por um pudibundo prelado de Coimbra, que todavia falhou no seu intento de proibir as escandalosas estrofes.

Era assim a vida dos editores naqueles tempos, tal como aliás em tempos bem próximos do nosso e que, para alguns, são saudosos. No meu tempo de escola, essas estrofes eram simplesmente desaconselhadas, pelo que, naturalmente, eram as primeiras a ser lidas pela nossa curiosidade adolescente: o magnífico Canto Nono.

Como trabalharia o editor António Gonçalves? Sabemos que uma contrafação do livro foi imediatamente apresentada, com os pelicanos com o bico ao contrário (Rita Marnoto introduziu novas ideias sobre essa misteriosa rotação dos pelicanos). E sabemos mais: que o êxito do poema em Espanha foi imediato e que o nosso poeta foi considerado “o príncipe dos poetas das Espanhas”, nos tempos da monarquia dual dos Filipes.

Uma feira do livro será também uma boa ocasião para reencontrar Camões. Mas por que não ir ao encontro de toda a poesia, quer da nossa língua, quer traduzida, que encontraremos um pouco atrás, timidamente atrás, nas bancas das editoras, mas que lá estará presente, com as suas múltiplas vozes e  composições? Os clássicos, sim, incluindo os mais esquecidos, mas também os mais recentes, os que ousaram “penetrar surdamente no reino das palavras” onde “estão os poemas que esperam ser escritos”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, e enfrentar toda a grande poesia que os antecedeu.

Mais do que geral, a nossa língua é infinitamente particular, e não deve ter vergonha de se chamar português, como os americanos não têm vergonha de falar inglês e os canadianos do Québec não têm vergonha de falar francês. Os muitos falares do português contemporâneo e os mais que surjam no futuro só robustecem a nossa língua comum e partilhada, que não é geral, tem um nome de nascimento, um nome que vai guardando nas suas metamorfoses.

Vamos à Feira do Livro no Dia de Camões. Encontraremos escritas várias e plurais, sós e mudas em estado de livro impresso, que esperam apenas que um leitor as venha acordar, palavras como belas adormecidas à espera do seu príncipe. O leitor é o príncipe das suas leituras. E a nossa experiência de vida e conhecimento das coisas estará sempre incompleta e meio vazia sem esses encontros mágicos com a literatura, decisivos para a nossa formação humana.

Diário de Notícias
www.dn.pt