Desde 2020, o impacto da transição para uma economia impulsionada por Inteligência Artificial (IA), automação avançada e robótica deixou de ser uma promessa futurista para se tornar num dos pilares da produção industrial e dos serviços contemporâneos. Se nas revoluções industriais anteriores as máquinas substituíram a força física humana sem destruir a capacidade global de absorção de mão de obra, o ciclo atual coloca novos desafios ao mercado de trabalho. Não faltam empresas tecnológicas demonstrando que estas tecnologias servem para “aumentar a produtividade”; várias empresas globais anunciaram cortes significativos de pessoal justificando-os explicitamente com ganhos de eficiência ou realocação de recursos para a IA. O epicentro deste debate está focado no desemprego friccional ou estrutural por demissões diretas (ex: a substituição direta de trabalhadores por IA, automação e robôs).. 1. Previsões gerais de desemprego devido a IA, automação avançada ou robótica e impacto no mercado laboralComo tem sido referido por vários especialistas – da Anthropic, da Microsoft, da JP Morgan – é muito provável que o desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA), o seu uso generalizado e a sua progressiva integração no mercado de trabalho conduzam a mais desemprego.Vejamos alguns cenários previstos e medidas de mitigação sugeridas por organizações internacionais, think tanks e especialistas.Embora o saldo total de empregos possa ser positivo a longo prazo, o estimado despedimento de trabalhadores no curto e médio prazo é significativo.Taxas de afetação: O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que cerca de 40% dos empregos mundiais estão expostos à IA. Em economias avançadas, esse número sobe para 60%, onde a tecnologia pode tanto aumentar a produtividade como substituir funções inteiras.Segundo um relatório de 2023 da Goldman Sachs Research (GSR), num período de 10 anos (2023~2033), a IA poderá substituir o equivalente a 300 milhões de empregos a tempo inteiro, podendo substituir 25% das tarefas laborais nos EUA e na Europa, embora também possa gerar novos empregos e um aumento significativo da produtividade. . Além disso, a GSR estima que a IA possa gerar um aumento de 7% no valor total anual dos bens e serviços produzidos a nível global nesse período.O relatório prevê ainda que 2/3 dos empregos nos EUA e na Europa “serão expostos a algum grau de automatização por IA”.A Forbes, também em 2023, referia, citando um relatório do MIT e da Universidade de Boston, que a IA iria substituir até dois milhões de trabalhadores da indústria transformadora até 2026.Um estudo do McKinsey Global Institute referia que, até 2030, pelo menos 14% dos colaboradores em todo o mundo poderão precisar de mudar de carreira devido à digitalização, à robótica e aos avanços da IA.“Eliminação” vs. “criação”: O relatório Future of Jobs Report 2025 do Fórum Económico Mundial (WEF) projeta que, até 2030, a IA poderá eliminar 92 milhões de postos de trabalho, mas estima que venha a compensar com a criação de 170 milhões de novas funções – ex.: especialistas em Big Data, engenheiros de Fintech, especialistas em IA e Machine Learning, programadores de software e aplicações, especialistas em veículos autónomos e elétricos, engenheiros do ambiente e engenheiros de energias renováveis. . Responsáveis de empresas, incluindo as grandes tecnológicas desenvolvendo IA, têm assumido a perda de muitos empregos hoje desempenhados por pessoas humanas. Dario Amodei – CEO da Anthropic, uma das mais poderosas criadoras de IA do mundo – fez em 2025 um alerta assustador: a AI pode causar a possível eliminação em massa de empregos em tecnologia, finanças, direito, consultoria e outras profissões de colarinho branco, especialmente empregos de nível básico, aumentando o desemprego para 10% a 20%, nos próximos 5 anos.Atrito natural e colarinho branco: Diferentemente de revoluções industriais anteriores, a IA afeta mais o trabalho cognitivo (“colarinho branco”). Estudos de Stanford (2025) indicam que muitas empresas estão a optar pelo atrito natural: em vez de despedimentos em massa, as vagas de quem sai não são preenchidas, sendo as tarefas absorvidas por sistemas automatizados.2. Desemprego nos EUA devido a IA, automação avançada e robótica (2023 – 2026) Vejamos alguns exemplos publicitados, tomando como referência o AI Lay-offs Tracker do DisplaceIndex, que refere terem sido eliminados [essencialmente nos EUA] c. 374.000 empregos devido a IA, desde janeiro de 2023 até julho de 2026. Impõe-se fazer cálculos quanto à eliminação de empregos decorrente da adoção de IA, automação avançada e robótica noutros países, desde logo no seio da OCDE. 2.1. Setor tecnológicoOracle (junho 2026): O relatório anual da Oracle confirmou: “A adoção e implementação de tecnologias de IA nas nossas operações resultaram, e podem continuar a resultar, em reduções na nossa força de trabalho.” Foram eliminados 21.000 postos de trabalho nos últimos 12 meses.Amazon (outubro 2025): A Amazon cortou 14.000 postos empresariais e na AWS, alegando a automação impulsionada pela IA nas operações na nuvem, no atendimento ao cliente e nas funções administrativas.Salesforce (setembro 2025): Reduziu 4000 postos de trabalho no âmbito do lançamento do Agentforce, uma plataforma concebida para substituir fluxos de trabalho manuais em vendas, apoio ao cliente e marketing por agentes autónomos de IA.Microsoft (julho 2026): A Microsoft cortou cerca de 9000 funcionários no início do seu ano fiscal de 2026, explicitamente devido ao controlo de custos em função do aumento das despesas com infraestruturas de IA. Os cortes abrangem as áreas de vendas, consultoria e Xbox.Cisco (maio 2026): A Cisco citou explicitamente a reestruturação impulsionada pela IA como a razão para o corte de aproximadamente 4.000 postos de trabalho.Meta (abril 2026): A Meta cortou 8000 empregos, no meio de um esforço para aumentar as despesas com IA, com os cortes diretamente ligados à realocação de recursos para investimentos em IA.HP (novembro 2025): A HP cortou até 5000 postos de trabalho (5% da sua força de trabalho), alegando que as ferramentas de IA reduziram substancialmente a necessidade de pessoal nas áreas de finanças, TI e cadeia de abastecimento.IBM (novembro 2025): A IBM cortou 2700 postos de trabalho numa reestruturação contínua impulsionada pela IA, com o CEO a citar agentes de IA a automatizar tarefas de trabalho intelectual e administrativas. 2.2. Setor logístico e de retalhoUPS (abril 2025): A UPS anunciou o corte de mais 20.000 postos de trabalho, citando explicitamente a automatização, impulsionada pela IA, do encaminhamento de encomendas e das operações de armazém, reduzindo a necessidade de pessoal humano.Amazon (janeiro 2026): A Amazon cortou 16.000 vagas em centros de distribuição e logística, à medida que a robótica de IA de última geração e os sistemas de planeamento da procura substituíram os trabalhadores de armazém.C.H. Robinson (2025): A gigante da logística eliminou cerca de 1400 cargos após a implementação de sistemas de IA que automatizam o emparelhamento de fretes e o planeamento de cargas.IKEA (setembro 2023): A Ikea cortou 10.000 postos de atendimento ao cliente em todo o mundo após implementar um chatbot com IA que lida com a maioria das consultas dos clientes.2.3. Setor financeiroPayPal (maio 2026): A PayPal anunciou planos para cortar 4760 postos de trabalho (20% da sua força de trabalho) ao longo de 2 a 3 anos. O novo CEO, Enrique Lores, descreveu a medida como uma reformulação tecnológica e cultural, afirmando que a empresa está a “adotar agressivamente a IA” nos processos de desenvolvimento para competir com a Stripe, Adyen e Apple Pay.Block (fevereiro 2026): A Block (Square e Cash App) cortou 4000 vagas nas suas divisões de fintech, citando a automatização do processamento de pagamentos, a deteção de fraudes e o apoio ao cliente através de IA.Klarna (maio 2025): A Klarna reduziu o seu pessoal em cerca de 2000 pessoas, atribuindo os cortes ao seu assistente de IA e às ferramentas internas que agora realizam trabalhos que anteriormente exigiam pessoal humano. Em 2024, a Klarna revelou que o robô assumiu o volume de trabalho equivalente ao de 700 agentes de suporte em tempo integral.Coinbase (fevereiro 2025): A Coinbase cortou aproximadamente 1100 colaboradores (cerca de 20% da sua força de trabalho), com o CEO Brian Armstrong a afirmar que as ferramentas de IA lidam agora com grande parte do trabalho de engenharia, conformidade e apoio ao cliente que anteriormente exigia pessoal humano.2.4. A nuance do “efeito bumerangue”: Dados de consultoras como a Challenger, Gray & Christmas indicam que a IA foi citada em dezenas de milhares de demissões diretas só nos EUA. No entanto, estudos recentes da Gartner e da Robert Half destacam que muitas empresas enfrentaram quebras de qualidade, falta de julgamento contextual e alucinações dos modelos, levando algumas – como é o caso da Klarna (em 2025/2026, a empresa veio a reajustar a estratégia ao verificar falhas na resolução de casos mais complexos que exigiam empatia e mediação humana) – a recontratar trabalhadores humanos para supervisionar as operações.2.5. Correção das previsões mais pessimistas: curiosamente, a GSR, num relatório de junho de 2026, reconhecia que, afinal, “o impacto global da IA no mercado de trabalho continua limitado, não havendo qualquer relação estatisticamente significativa entre a adoção da IA e o desemprego”.Em suma, as previsões gerais de desemprego friccional por parte de organizações internacionais, think tanks e especialistas são mais pessimistas que o conjunto dos dados recolhidos empresa a empresa. Embora a contabilidade seja difícil de fazer. Em especial no que tange à perda de oportunidades de emprego – casos em que nenhum trabalhador foi despedido, mas postos de trabalho que podiam ter sido criados não o foram devido à adoção de IA, automação avançada ou robótica. Urge procurar identificar e quantificar estas situações de desemprego decorrentes da “não criação de emprego” para determinar a sua relevância em termos de mercado laboral. Nestas situações de desemprego decorrentes da “não criação de emprego” existe uma manifesta desadequação da legislação laboral uma vez que, historicamente, o Direito do Trabalho tem estado focado na proteção de postos de trabalho existentes. É necessário ponderar formas de ajustamento do Direito do Trabalho e dos mecanismos de apoio social a estas novas situações de desemprego. Mas isso são outros quinhentos que merecem análise autónoma.