Durante muito tempo, os riscos climáticos e ambientais foram tratados como externalidades, constituindo temas relevantes, mas separadas das decisões orçamentais centrais do Estado. Essa abordagem está hoje desatualizada, sendo financeiramente perigosa, como pudemos ver com as consequências do comboio de tempestades que tivemos nos primeiros três meses de 2026, e que originou um custo estimado de, pelo menos, 5 mil milhões de euros para o país. Num contexto de alterações climáticas aceleradas, não integrar estes riscos no orçamento das despesas públicas, nos cadernos de encargos das obras públicas e no desenho dos planos nacionais é, em si mesmo, uma forma de má gestão financeira.Infraestruturas planeadas com base em padrões climáticos do passado – estradas, pontes, sistemas de drenagem, edifícios públicos ou habitação – tornam-se rapidamente mais vulneráveis e mais caras de manter, reparar ou adaptar. Cheias, ondas de calor, incêndios ou movimentos de terras não são “anomalias”: são riscos previsíveis que deveriam informar o desenho, os materiais, os prazos e os custos de cada investimento público. Ignorar o clima não reduz despesa; apenas adia o problema e amplifica a despesa.Este desafio é particularmente relevante num país como Portugal, que enfrenta simultaneamente escassez hídrica, aumento da temperatura média, maior exposição a eventos extremos e um vasto parque edificado envelhecido. Repensar a construção e a reabilitação de infraestruturas e habitação exige que a adaptação climática deixe de ser um capítulo acessório para passar a integrar os cadernos de encargos, os contratos públicos e os critérios de avaliação de custo ao longo do ciclo de vida dos projetos. Exige também investimento em conhecimento: na formação universitária, na engenharia, na arquitetura, no planeamento urbano e nas competências técnicas da Administração Pública.É neste contexto que ganha particular significado a recente iniciativa do Parlamento do Reino Unido, onde a Comissão de Auditoria Ambiental lançou um inquérito ao papel do Tesouro na política climática e ambiental. A mensagem é clara: Ministérios das Finanças e o Orçamento não são neutros do ponto de vista climático. As suas decisões moldam incentivos, prioridades de investimento e a resiliência futura da economia. Integrar riscos ambientais é uma função central da governação orçamental, não um exercício voluntário ou simbólico.Em Portugal, o desenvolvimento da orçamentação verde constitui um avanço estruturante na forma como a política orçamental se aproxima dos objetivos climáticos e ambientais. Ao recorrer a metodologias de green budget tagging, este exercício permite identificar e classificar a despesa e a receita pública em função do seu contributo – favorável, neutro ou desfavorável – para objetivos como a mitigação e adaptação às alterações climáticas, a gestão da água, a economia circular ou a proteção da biodiversidade. Este mapeamento, já em curso, é um passo essencial para aumentar a transparência e a coerência entre políticas públicas e compromissos ambientais.A relevância da orçamentação verde para o debate sobre riscos climáticos reside precisamente na sua capacidade de ligar prioridades ambientais à decisão orçamental concreta. Ao tornar visíveis as interações entre despesa pública e objetivos climáticos, cria as condições para evoluir de um exercício de classificação para uma integração mais robusta dos riscos físicos e de transição na análise da despesa, nos cadernos de encargos das obras públicas e na avaliação do investimento ao longo do seu ciclo de vida. Reforçar esta ligação permite melhorar a qualidade da despesa pública, antecipar custos futuros associados à adaptação climática e apoiar decisões orçamentais mais informadas.Portugal pode ter agora uma oportunidade de consolidar a orçamentação verde como instrumento central de gestão de risco e de planeamento financeiro num país cada vez mais exposto aos impactos das alterações climáticas. Este exercício pode parecer académico e utópico para muitos economistas, ou mesmo secundário, no entanto é um tema que está no topo das agendas dos organismos internacionais como o FMI, Banco Mundial e Comissão Europeia, mesmo que, atualmente, este tema não faça as capas dos jornais.