Aquilo que o presidente James Monroe fez no célebre discurso de 1823 foi uma advertência às potências europeias da Santa Aliança para que não tentassem ajudar a Espanha a recuperar as ex-colónias rebeldes. Mas a doutrina costuma ser sintetizada como “a América para os americanos”. E se pensarmos em América como país e não como continente, a peça In The Heights, agora em exibição em Lisboa, celebra isso mesmo, pois passa-se em Washington Heights, um bairro de Nova Iorque onde os dominicanos, mas também outros latino-americanos, se instalaram, e procuram a sua versão do American Dream, ou, melhor, do Sueño Americano.Lin-Manuel Miranda, o autor do mega-sucesso Hamilton, tornou-se conhecido com este In The Heights, estreado em 2005 e que teve honras de Broadway em 2008. Ele próprio nova-iorquino com raízes nas Caraíbas, em Porto Rico, tem tudo para imaginar a vida de Usnavi, o laborioso dominicano- americano que é a personagem principal do musical e cujo curioso nome quem for um destes dias ao Teatro Variedades vai a dado momento ter oportunidade de perceber...e sorrir.Visitei há uns anos Washington Heights. Fui lá em reportagem, na pista de João Rodrigues, ou Juan Rodriguez, nascido na atual República Dominicana há mais de 400 anos e que seria filho de um português e de uma angolana. Os dominicanos dizem que é o primeiro latino de Nova Iorque, chegado ainda no tempo dos holandeses (que lhe chamavam Jan Rodrigues) e quando a cidade era Nova Amesterdão. Mas no Harlem, o bairro negro de Manhattan, há um mural com uma recriação de Rodrigues/Rodriguez, reclamado também como o primeiro afro-americano de Nova Iorque.Comecei a minha visita a Washington Heights na rua onde a avenida Broadway ganha um segundo nome, Juan Rodriguez Way, em homenagem ao tal filho de um português, e recordo-me de ter visto à venda CDs de Juan Luis Guerra, que cheguei a pensar ser um pinga-amor até que um meu professor americano, a explicar a complexidade da sociedade do seu país, me alertou para as canções com letras que falavam da tentação da emigração, comum a tantos dominicanos, e das dificuldades. São mais de meio milhão em Nova-Iorque, a maior comunidade imigrante na cidade. Caminhar por aquelas ruas era ouvir aqui e acolá merengue, o mesmo ritmo que brilha no musical produzido pela Music Theater Lisbon. Também me deu a oportunidade de provar um prato típico de um país que até hoje não visitei, rabo encendido, uma versão picante de um guisado de rabo de boi..A cidade mais antiga dos Estados Unidos é St. Augustine, na Florida, uma região que os espanhóis colonizaram desde o século XVI até à época de Monroe. E São Francisco, na Califórnia, foi fundada também pelos espanhóis, em 1775, um ano antes da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Não esquecer ainda que apesar de Nova Orleães ter sido francesa, e a venda da Luisiana obra de Napoleão, o famoso bairro francês da cidade é na realidade o velho bairro espanhol.País construído por imigrantes, muitos deles das ilhas britânicas e da Alemanha, como os antepassados do presidente Donald Trump, também italianos, polacos, gregos e tantos outros, incluindo portugueses, a realidade histórica faz com que as comunidades de língua espanhola tenham um lugar especial no país. Isto quer sejam os mexicanos, que muitas vezes se instalam em estados que até foram ainda parte do México independente, como a Califórnia ou o Texas, sejam os porto-riquenhos, que em 1898 viram a sua ilha passar diretamente da Espanha para os Estados Unidos, em resultado da Guerra Hispano-Americana, sejam os dominicanos e tantos outros que procuram o sonho americano, um ideal mais forte do que qualquer política anti-imigração.In The Heights é um musical que vale enquanto tal, com os ritmos do merengue a misturarem-se com a salsa e o hip-hop à medida que se conta uma história que não é só a de Usnavi, mas da vizinhança, vários sonhos que se cruzam, desde a aluna brilhante que ganha uma bolsa para estudar numa universidade de topo às donas do salão de cabeleireiro que defendem o seu negócio. E, claro, há a abuela, mas mais não vou dizer sobre a peça.Theodore Roosevelt, no início do século XX, criou a sua própria interpretação da Doutrina Monroe, o chamado Corolário Roosevelt. Com ele e os sucessores deram-se intervenções em vários países, entre os quais a República Dominicana, que já foi uma ditadura, mas hoje é uma democracia, com uma economia que se desenvolve, e muito beneficia das belas praias que se enchem de turistas. Agora Trump, com as pressões para mudança de regime na Venezuela e em Cuba, criou o seu próprio Corolário. Com a sua arte, Lin-Manuel Miranda está também a dar uma interpretação à ideia de “a América para os americanos”, espécie de Corolário da Doutrina Monroe, uma celebração da diversidade que tem sido o sucesso dos Estados Unidos, país que a 4 de julho celebra 250 anos.Recordo que o próprio musical Hamilton é sobre Alexander Hamilton, um Pai Fundador nascido nas Caraíbas, na ilha de Nevis, e que chegou como imigrante com 15 anos e foi braço-direito de George Washington durante a Guerra de Independência e depois o primeiro secretário do Tesouro. Lin-Manuel Miranda, que na semana antes da estreia de In The Heights versão portuguesa conversou por videochamada com o elenco e resto da equipa, não perde uma oportunidade para valorizar a riqueza que é para a América o contributo dos imigrantes. “A imigração está a ser usada como o bode expiatório dos problemas das instituições”, disse o criador americano nessa conversa a partir da sua casa em Nova-Iorque para quem o ouvia em Lisboa. O debate está lançado.